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Luiz Carlos Merten

07 Agosto 2010 | 18h27

GRAMADO – Evaldo Macarzel não tem dado sorte comigo, ou eu não tenho tido sorte com ele. Muita gente me fala sobre ‘Quebradeiras’ como melhor filme do Evaldo e eu perdi, hoje, de novo. Estava todo animado, mas nos últimos dias meu nariz tem sangrado. Hoje, parecia uma goteira e eu fui na emergência do hospital daqui. Pode ser um virus (como?), um vaso sanguíneo que rompeu (a gripe está me forçando a toda hora assoar o nariz) e o problema é que tomo anticoagulante. Enfim, o médico não chegou a me deixar preocupado, mas é muito desagradável essa sangueira. Havia assistido ao filme ds Daniel Burman, ‘Dos Hermanos’. Os curadores José Carlos Avellar e Sérgio Sanz não acreditam no campeonato de filmes e criaram uma extensa programação paralela, que começou com a produção argentina.  É irregular, como me disseram? É, mas a relação familiar desse casal de irmãos ultrapassa os velhos ressentimentos e toca em temas mais viscerais. O irmão não tem coragem de chamar a irmã de asquerosa, como faz na imaginação, mas ela cospe na cara dele o ‘viado’, na cena em que se irrita. A mãe morre logo no começo, a irmã ganha a vida meio que aplicando golpes, como corretora. Quer vender a casa da família. Ele, que cuidava da ‘vieja’, agora recomeça a viver e vai fazer teatro. A peça dentro do filme é ‘Édipo Rei’. Com os defeitos que possa ter – não é o melhor de Daniel Burman -, achei triste, emocionante. E a atriz é fantástica – Graciela Borges. A jovem Graciela era deslumbrante nos filmes de Leopoldo Torre-Nilsson. Nunca me esqueço dela como objeto de desejo de Alfredo Alcón, que está morrendo, em ‘Piel de Verano’. É um filme de que gosto acho que pelos defeitos. Eles são tão evidentes, mas nunca me impediram de viajar no filme, de me interessar pela garota que aceita, em troca de dinheiro, minorar o sofrimento do cara terminal. Ele descobre, e ela também, tardiamente, percebe que se apaixonou. Ambos perdem, e a dor dela parece mais desesperada. Graciela Borges fez vários filmes com Torre-Nilsson e com outros autores de prestígio nos anos 1960. Lembro-me de ‘Crónica de Una Señora’, de quem era mesmo o diretor? Vou procurar. Na terceira idade, teve um recomeço como a matriarca de ‘La Ciénaga’, O Pântano, de Lucrecia Martel. Esse cinema ‘humano’, que tanto atrai o públic0 nos filmes argentinos, depende muito dos atores, e eles, via de regra, são grandes. Quando o irmão, ofendido, sai de casa, Graciela pede – ‘Fala comigo.’ Como o anjo vingador que se vinga do assassino em ‘O Segredo dos Seus Olhos’, Antonio Gasalla, que faz o papel, não diz uma palavra. O silêncio é de ouro, mas também pode ser uma arma, e terrível. Daniel Burman sabe disso. Gostei de ter visto ‘Dois Irmãos’.