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Luiz Carlos Merten

07 Maio 2012 | 13h55

Tenho comentado com meu amigo Jotabê Medeiros o sucesso de ‘Os Vingadores”. O filme virou um fenômeno de massa em todo o mundo. Diverti-me bastante, mas o que sempre me impressiona é a reação dos fãs de quadrinhos. É mais fácil encontrar um fã de Dostoievski que aceite a necessidade de mudar seus romances para torná-los cinematográficos do que um fã de gibi que aceite a menor mudança que seja em seu super-herói. Uma das coisas em que o filme exagera é na importância que confere a Valentina, nivelada a Homem de Ferro, Capitão América, Thor e Hulk, mas é Scarlet Johansson e está explicado. Vou agora mudar o rumo do post. Fiquei com a crítica do leitor no episódio de ‘Eu Receberia as Piores Notícias’. Cinema de autor, o que é isso? No Recife, assisti a todos os debates e o assunto sempre caía no cinema como arte coletiva, em que uma equipe serve ao propósito de expressar, na tela, a visão de um homem (ou mulher), o diretor(a). Falei no post anterior da nouvelle vague. O cinema de autor foi uma invenção da crítica francesa, principalmente aquela reunida em ‘Cahiers du Cinéma’ e que deu origem ao movimento de renovação do cinema na França. O curioso é que a teoria dos autores surgiu para dar legitimidade ao cinema dito ‘comercial’ de Hollywood. Alfred Hitchcock era um diretor de suspense, Howard Hawks um diretor de comédias e westerns e a crítica norte-americana preferia os autores sérios, que considerava de prestígio, como William Wyler, Fred Zinnemann, George Stevens etc. Samuel Fuller, esse nem existia para a crítica dos EUA. O que os franceses fizeram foi mostrar que, a despeito da diversidade de seus filmes, esses diretores, e muitos outros, possuíam um estilo (alguns) e, senão exatamente um estilo, faziam filmes que expressavam uma visão de mundo. Foi assim que surgiu, na origem, a teoria dos autores que, após Jean-Luc Godard e François Truffaut, e com Serge Daney, passou a investir num cinema mais independente, em que o diretor é também roteirista etc. Na origem, não era nada disso e era a forma de mostrar como, mesmo sendo muitas vezes contratados dos estúdios e sem direito de montagem, os caras eram autores dos filmes. Um dos casos exemplares, para mim, é Don Weiss. Don quem? Procure saber o que diretores considerados grandes como John Ford, Ingmar Bergman, Federico Fellini e Luchino Visconti estavam fazendo em 1954. Naquele ano, ‘Cahiers’ só teve olhos para Don Weiss, com um filme intitilado ‘As Aventuras de Haji Baba’, com John Derek e Elaine Stewart. É a obra-prima do cinema oriental de Hollywood, das 1001 Noites, mas Weiss, pior que Fuller, nunca existiu (e continua não existindo) para a crítica dos EUA. No começo dos anos 1960, ele havia acabado há um tempão, mas os franceses ainda se encantavam com a forma como tirava partido da baixa estatura da cantora Connie Francis, fazendo disso praticamente todo o tema de ‘Em Busca do Amor’. Alguns dos diretores que mais admiro – Stanley Kubrick, Alfred Hitchcock, Luchino Visconti e Alain Resnais – nunca precisaram escrever uma linha do roteiro de seus grandes filmes para ser ‘autores’. Não menosprezo, de maneira nenhuma, a autoria dos filmes. Como jornalista de cinema – crítico? -, estaria atirando no meu pé. Só não a vejo exatamente do mesmo jeito que meus colegas. E, quando entra a figura do preparador de elenco, quando se discute o ‘processo’, posso até entender, respeitar, mas se o assunto fica nisso, como no interminável debate sobre ‘Paraísos Artificiais’ no Recife, me aborreço de vez.