Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » ‘Domingos’

Cultura

Luiz Carlos Merten

27 Março 2009 | 11h51

RIO – Olá, pela procedência vocês já viram aonde estou. Vim ontem para o Rio, para a abertura do É Tudo Verdade. Foi uma bela sessão, a de ‘Domingos’. Achei muito bonito o documentário que a atriz Maria Ribeiro fez sobre o diretor Domingos Oliveira. O recorte dela é muito delicado e, se é verdade que Domingos, em seus melhores momentos, filmou de forma amorosa as relações, as mulheres, a arte, a vida – como disse Amir Labaki na apresentação -, Maria fez um filme amoroso sobre o cineasta. Vim porque achei que a sessão seria como foi. Domingos é um personagem carioca e lá estavam seus amigos. Pior mais calorosa que venha a ser a exibição no É Tudo Verdade em Sampa, não será a mesma coisa. Gostei e daqui a pouco vou falar com a diretora. O filme passa segunda aí em São Paulo. Pretendo voltar ao assunto, mas aproveito a costura de Maria, a forma como ela monta entrevistas e cenas de arquivo, para dizer duas ou três palavras sobre Domingos Oliveira. Só quem foi jovem, nos anos 60, pode entender o impacto que teve ‘Todas as Mulheres do Mundo’. O Cinema Novo queria ser político, revolucionário, e vinha o Domingos com aquela crônica sobre um sujeito apaixonado e que avalia se vale a pena renunciar às outras mulheres por amor a uma. Domingos era ‘alienado’, segundo a avaliação da época, mas eu tenho para mim que ‘Todas as Mulheres’ é um filme acima do bem e do mal. Faz parte não só da minha memória afetiva, mas eu tenho impressão que da de todo mundo, mesmo que as pessoas não falem. E o filme tem Leila Diniz. Leila, como Maria Alice, é inesquecível! Domingos seguiu uma carreira interessante, ocacionalmente brilhante, mas eu confesso que era mais fácil defendê-lo quando desbundava e não estava nem aí para os outros. O Domingos recente, que às vezes me irrita – falo por mim, bem entendido -, virou o salvador da pátria. Ele agora tem a fórmula para salvar o cinema brasileiro, o filme barato, de baixo orçamento e alto astral, discute se mulher nua no filme dos outros é semvergonhice. Me cansa. Menos, Domingos, menos. Nenhum de seus filmes recentes me parece tão bom quanto os antigos, mas eu admito que seria mais tolerante se não existisse sempre o discurso do tipo ‘façam como eu faço’. O cinema de Domingos é um, não ‘o’. A força do cinema brasileiro é a diversidade, até, ou principalmente (dirão alguns), os filmes de que não gosto. Mas eu adorei reencontrar Domingos ontem à noite, e quando o cumprimentei não estava querendo fazer média. Fui sincero. Como ele próprio diz no documentário, seus filmes podem ser ruins, mas a visão de mundo – dionisíaca – é do ‘caralho’ (perdoem-me o palavrão). E o seu compromisso com a vida, acima de tudo, me toca e fascina. Estou escrevendo na sucursal do ‘Estado’ e, de fundo, na minha cabeça, estou ouvindo Gabriel Fauré, aquela frase que me acompanha desde que a ouvi pela primeira vez, há 43 anos, em ‘Todas as Mulheres’. Lá-rarará, larararará… Domingos diz coisas maravilhosas. preparem-se para ouvi-las na segunda. Com Truffaut, ele aprendeu que poderia usar música clássica como trilha da vida cotidiana. Sensacional. É um belo documentário, simples, singelo mas também rico e complexo como seu retratado. Fico feliz da vida de que Maria Ribeiro tenha me ajudado, na minha cabeça, a me reconciliar com Domingos Oliveira.