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Luiz Carlos Merten

19 Outubro 2010 | 17h05

Existem tantos post de lançamentos de DVD que quero fazer. O de ‘Domingo Maldito’, por exemplo. O filme saiu pela Versátil. O espectador que assiste hoje ao drama de John Schlesinger não faz ideia do que foi o impacto que teve, no começo dos anos 1970. Schlesinger já recebera o Oscar por ‘Perdidos na Noite’ e o filme foi um marco na abordagem de um tema adulto. Até a Academia de Hollywood se rendeu à história de Joe Buck, garanhão texano que vai para Nova York disposto a se dar bem como gigolô de mulheres famintas de sexo e termina se ligando a um trapaceirinho miserável, um tal de Ratso Rizzo, que o arrasta numa escalada descendente que inclui fazer sexo com homens, como michê. O filme transformou Jon Voight, o futuro pai de Angelina Jolie, em astro e consolidou a carreira de Dustin Hoffman, que já arrebentara em ‘A Primeira Noite de Um Homem’, de Mike Nichols, também pioneiro na abordagem da sexualidade, no caso hetero, na tela. Na sequência de ‘Midnight Cowboy’, o diretor inglês fez, com roteiro da crítica Penelope Gilliat,  outra abordagem do homossexualismo, essa mais ‘cotidiana’. Nada de  michês nem gays velhos. Peter Finch faz um médico respeitável, que não desmunheca nem por um minuto, mas ele divide a cama com o garoto Murray Head, que também é – ooooó! – amante de Glenda Jackson. Peter ama Murray, Glenda ama Murray e Murray retribui amando os dois. Um gay, um bissex e uma mulher madura e desejável. Em1971, se não na vida, no cinema isso ainda era suficientemente raro para provocar escândalo, e o filme provocou. Os militares, durante a ditadura, subiram nas tamancas, o filme esteve proibido, foi liberado com cortes e até no exterior Peter Finch veio a público explicar seu beijo na boca de Murray Head – ‘O que eu fiz, foi pela Inglaterra!’ O próprio Schlesinger era gay e de todas as histórias que ouvi sobre seu filme a de que mais gostei foi póstuma, acompanhando o necrológio que lhe dedicou a revista francesa ‘Positif’, quando ele morreu, em 2003. Consta que o pai de Schlesinger teria dito ao filho – ‘Tudo bem, John, mas precisava fazer com que ele (o personagem) também fosse judeu?’ ‘Domingo Maldito’ passa-se na cosmopolita Londres pós-Beatles. Exatamente dez anos antes, com ‘Meu Passado Me Condena’ (Victim), o astro Dirk Bogarde e o diretor Basil Dearden haviam contribuído para despenalizar o homossealismo que, como ‘distúrbio sexual’, permanecia atrelado ao código de comportamento da era vitoriana, sujeitando seus praticantes à chantagem (era o tema de Dearden). Ser gay poderia não ser mais crime – exercer sua sexualidade -, mas a Londres de Schlesinger em ‘Domingo Maldito’ não é menos ‘vitoriana’. Embora tenha cenas de homossexualismo explícito – sem penetrações, claro – e seja esse o tema em discussão, o filme meio que mascara sua história como estudo da solidão urbana etc e tal, o que não tira a força de ‘Sunday, Bloody Sunday’ (título original), mas de alguma forma o enfraquece. Dito isso, ‘Domingo Maldito’ ainda é um belo filme e Peter Finch e Glenda Jackson são excepcionais nos papeis. Ela já recebera seu primeiro Oscar de melhor atriz (por ‘Mulheres Apaixonadas’, de Ken Russell), mas teria de esperar mais dois anos pelo segundo (por Um Toque de Classe’, de Melvin Frank). Ele só receberia seu Oscar (póstumo, portanto não ‘recebeu’)  cinco anos depois, por ‘Network – Rede de Intrigas’, de Sidney Lumet. Por melhor que seja como o pregador enlouquecido do filme de Lumet sobre os bastidores da TV, não creio que Finch tivesse ganhado o prêmio, se a Academia não achasse que já lhe devia um Oscar por ‘Domingo Maldito’. Vejam, e comentem sobre o que acharam.