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Luiz Carlos Merten

05 Março 2012 | 12h19

Sábado à noite saímos para comemorar o aniversário de Jussara Guedes – que estava linda – e terminei exagerando no vinho. Acordei ontem tarde – 9 horas! -, mas em vez de vir para a redação do Estado resolvi dar uma zapeada na TV paga. Estava começando um filme que nunca vi, ‘Séraphine’, que deu, há dois ou três anos, o César, o Oscar francês, para Yolande Moreau. Ela faz Séraphine Louis, que se tornou conhecida como Séraphine de Senlis, uma faxineira que alternava as atividades domésticas com a pintura e morreu louca, internada num manicômio, nos anos 1940. O trabalho de Yolande é realmente prodigioso e eu não conseguia desgrudar o olho da TV, só saindo de casa quase meio-dia. O filme tem um miolo muito interessante – a relação dela com seu mecenas, um crítico de arte que reprime seu homossexualismo. Yolande pinta obsessivamente. Sua inspiração vem, como ela diz, do céu e vira uma piração. Os quadros se tornam cada vez maiores e a representação de flores e frutos coloca nas telas o que parece um mundo em movimento (e assustador). A parte final, da internação, é um tanto previsível, para não dizer banal, mas o último plano, quando Yolande/Séraphine atravessa o campo e a gente vê de longe quando ela se senta à sombra da árvore é de uma beleza de cortar o fôlego. Me lembrei dos documentários de Leon Hirszman sobre o museu do inconsciente da dra. Nize Silveira, do Van Gogh de Vincente Minnelli, do de Maurice Pialat. Por conta disso tudo – tinha de redigir os filmes na TV -, perdi ‘O Homem Que Matou o Facínora’, que queria rever, às 2 da tarde, no ciclo Os Filmes de Minha Vida, no MIS. Fui almoçar, no Centro (no grill República) e não resisto a postar sobre minhas experiêdncias da tarde. Existe uma São Paulo que, às vezes, eu tenho a impressão de ser o único a flagrar. Onde você estava às 3 da tarde? Certamente não no Shopping Light, onde todos os domingos realiza-se uma atividade singular. Há um instrutor de dança, que comanda uma verdadeira multidão, estimulando as pessoas a… se liberar. É dança, mas é algo mais, uma catarse e me surpreendeu ver como aumentou o número de participantes. Em janeiro e fevereiro, viajei muito e deixei de ir tomar meu café das tardes de domingo. Não faço ideia de quem é o instrutor, mas ele é jovem, e o público que reúne é o mais heterogêneo possível. Homens e mulheres, gays e crianças, muitos idosos. Alguns chegam acompanhados, mas a maioria me parece de solitários. E se soltam, e dançam. Foi o meu momento Ettore Scola, ‘O Baile’, na tarde de domingo. Dali, desci para a São João, rumo ao Largo Paisandu e ao chegar à Galeria Olido tive outra surpresa. O aquário da galeria abriga outro projeto de expressão corporal. Já me ocorreu de parar para ver as pessoas dançarem, mas ontem era uma garotada de periferia e eles faziam um tipo de ginástica acrobática, de pirueta que deve ter um nome, mas não sei qual é. Não tenho palavras para tentar reproduzir o que vi, mas foi muito bacana. (Olha eu entregando a idade, de novo. Bacana é uma palavra em desusso, mas é tão bacana, não é?)  Me emocionei, tive uma espécie de euforia. Sou um bicho de rua, cachorro vira-lata. Em casa, não teria visto nada disso. Mas o meu domingo ainda iria longe. Até o próximo post.

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