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Luiz Carlos Merten

29 Junho 2007 | 12h01

Engraçado que o Medeiro Vaz – sempre ele – tenha vindo hoje assinalar os erros de meu livro Cinema, Entre a Realidade e o Artifício. Engraçado porque estou com o livro aqui na mão. Esta semana deveria ter entrevistado o Tiago Fragoso e o Garcia Jr. pela dublagem de Ratatouille. Tiago faz o ratinho, Garcia Jr. é o diretor de dublagem da Disney do Brasil e eu, na realidade, entrevistei os dois, mas pelo telefone, porque o trânsito da Marginal, naquele dia – terça-feira –, me impediu de chegar ao edifício RoboCop, na Av. Nações Unidas, onde estavam. Garcia Jr. estava com o livro e queria um autógrafo. Mandou-o para a minha casa, para que eu autografasse e enviasse para o Rio, onde mora, o que vou fazer hoje. É curioso, vou relatar a gênese desses livros. Em 1999, a editora gaúcha Artes & Ofícios me encomendou um livro para comemorar o centenário do cinema. Alguma coisa básica, uma introdução, com um pouco de história e fundamentos de estética. Na época, estava impressionado com o Tarantino, pois havia acabado de assistir a Tempo de Violência (Pulp Fiction). Dividi o livro em capítulos, à maneira de ensaios, mapeando figuras e movimentos que fizeram avançar a linguagem e a política, num panorama que ia dos irmãos Lumière a Tarantino. Isso levou o editor a batizar o livro como Cinema – Um Zapping de Lumière a Tarantino. Dez anos depois, a Artes & Ofícios me contactou querendo reeditar o livro, mas o cinema havia mudado tanto, sob o impacto das novas tecnologias, e eu andava tão decepcionado com Tarantino que fiz uma contraproposta – escreveria outro livro, que decidi chamar de Entre a Realidade o Artifício, porque partindo dos Lumière e mantendo a estrutura em capítulos/ensaios, queria chegar a Baz Luhrmann e a Moulin Rouge, no reconhecimento de que, desde as origens, primeiro com os Lumière e depois com Méliès, o mágico, o cinema viveu sempre dividido entre a vocação realista – uma janela para o mundo – e a sedução pela fantasia, que se tornou dominante no cinemão industrializado. Escrevi o livro assim, rapidamente, e até acredito que possa conter erros, mas o que me atraiu nele foi a possibilidade de colocar em perspectiva autores como Eisenstein e Hitchcock, por exemplo. Já virou lugar comum dizer-se que a cena da escadaria de Odessa, em O Encouraçado Potemkin, é a mais influente da história do história. Mas e se for a do assassinato na ducha em Psicose? Todo o cinema das últimas décadas e a linguagem da MTV nascem daqueles mais de 70 cortes distribuídos em 45 segundos (apenas!) de filme. É uma provocação, reconheço, contrapor um tema nobre, consagrado, como o do Encouraçado – o homem/massa no processo revolucionário russo –, ao pulp de Robert Bloch, mesmo que refeito por Hitchcock, que o carregou de sugestões psicanalíticas. (É outro lugar comum, o de dizer que Freud e Hitchcock nasceram um para o outro). O mais interessante é que Psicose, o livro, é pulp, o que é outra maneira de me trazer ao tempo de violência de Tarantino, sem citá-lo. Isso era intencional, mas nem as pessoas que me comentaram o livro, gostando ou não, fizeram a ponte. Sei que tem gente que adora este livro, independentemente de seus erros, mas penso que nunca faria uma revisão. Poderia, isso sim, escrever outro livro – um work in progress sem fim – e aí talvez satisfizesse um desejo de leitores que me acompanham e sempre me cobram. Em nenhum dos dois livros escrevi o texto que eles esperavam, sobre Bergman e meu querido Visconti. Quem sabe?