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Dois Jeremys, um bom, o outro…

Luiz Carlos Merten

02 Janeiro 2009 | 15h54

Cheguei hoje tarde no jornal, tinha o horário na rádio (Eldorado AM), fiz os filmes na TV e enterrei Donald E. Westlake e Edmund Purdom. Só agora estou tendo tempo de vir ao blog. O que me atrasou pela manhã foi um filme na TV paga. Estava zapeando, entrou aquela cara linda da Madeleine Stowe e eu já fui largando o controle remoto. O filme era ‘Quatro Mulheres e Um Destino’, de Jeremy Kaplan, um western em que as mulheres empunham as pistolas, sem a suspeita de lesbianismo que Nicholas Ray lançou sobre o duelo final de ‘Johnny Guitar’ (entre Joan Crawford e Mercedes McCambridge). Não sou louco de dizer que o filme é bom – nenhum filme de Jeremy Kaplan é -, mas confesso que tive certo prazer em ver Madeleine e mais Andie McDowell, Drew Barrymore e Mary Stuart Masterson embaralhar as cartas do Velho Oeste, com certeza seguindo as pegadas de Thelma e Louise, quando tentaram se afirmar no universo masculino, reproduzindo as trajetórias – ou assumindo as armas – dos homens. Thelma e Louise dão-se mal, as quatro mulheres até que se saem bem, mesmo chamuscadas. Justamente Madeleine perde seu grande amor, o pistoleiro vivido por Dermot Mulroney. Tudo bem, o filme não deixa saudade, mas eu fiquei viajando naquelas formosuras. Até hoje não sei é verdadeira uma história que me contaram, que a bela Madeleine resolveu aprimorar o que a natureza já tinha feito perfeito e investiu numa plástica que foi mal-sucedida e isso teria terminado com sua carreira. É verdade? Fantasia? Uma mulher tão bonita, meu Deus, e atriz talentosa. Parou por que? A verdade é que há muito não sei dela. Lembro-me de quando a entrevistei, pelo telefone, por conta do thriller ‘Blink – Num Piscar de Olhos’, de Michael Apted. Madeleine foi calorosa. Conversou e não apenas respondeu burocraticamente a meia-dúzia de perguntas. Viajando ainda mais, é incrível, mas cada vez que me deparo com o nome de Jeremy Kaplan me lembro do outro Jeremy, o Kagan, que é muito melhor e fez um filme que me marcou muito. Lembram-se de ‘The Journey of Natty Gann’, de 1985? No Brasil, chamou-se ‘Viagem Clandestina’. Meredith Salenger faz a garota que, nos anos 1930, parte em busca do pai. Todos dizem que ele a abandonou, mas Meredith não acredita e atravessa os EUA em companhia de um lobo, procurando esse pai mítico. No caminho, encontra todo tipo de personagem, incluindo um garoto, que vira, como se diz, seu ‘interesse romântico’ e ele é interpretado por John Cusack, num de seus primeiros papéis (o primeiro?). O lobo é fantástico e sei, porque li em algum lugar, que na verdade é feito por diversos cães policiais que se revezam no ‘papel’. ‘Natty Gann’ é um daqueles filmes pouco valorizados que vale conhecer. Esse, sim, não ‘Quatro Mulheres e Um Destino’, é um grande filme. Produzido pela Disney, não parece muito diferente de outros financiados pelo estúdio, mas Kagan acerta o tom e termina oferecendo uma visão muito interessante dos EUA da depressão e das ferrovias, mais para o socialismo de Jack London do que para o anti-sindicalismo do velho Walt. Não sei se ‘Viagem Clandestina’ saiu em DVD, mas vocês sabem melhor do que eu onde – e como – garimpar essa informação. Só sugiro que vejam o filme e depois me digam se (não) gostaram.