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Luiz Carlos Merten

28 Agosto 2008 | 11h15

Tenho viajado bastante ultimamente e deve ter sido numa dessas ausências que a Versátil me enviou os DVDs de ‘O Dinheiro’ e ‘O Rito’. Minha filha (a Lúcia) abriu o pacote e colocou os DVDs na estante. A conseqüência foi que só agora de manhã, pouco antes de sair de casa, procurando outra coisa encontrei o que não esperava – os filmes de Robert Bresson e Ingmar Bergman. ‘O Dinheiro’ foi o último filme de Bresson, em 1983, embora ele só tenha morrido em 1999. Podem existir outros casos, em outros países – e no Brasil tivemos o mítico Mário Peixoto, de ‘Limite’ – mas Bresson e Jacques Tati compõem fenômenos singulares, como ‘solitários’ do cinema francês. Bresson não se identificou com nenhuma escola ou movimento. Truffaut o vinculava mais à pintura do que ao próprio cinema, imagino que por causa da abstração à qual tendem seus filmes, com aquele rigor, aquele despojamento, aquelas paredes brancas. Não sei se vocês conhecem ‘O Dinheiro’, que fornece uma espécie de súmula do cinema de Bresson, com seu tema do inocente que tenta resistir ao poder arbitrário do mal no mundo. O filme baseia-se em Tolstoi (‘A Nota Falsa’) e Bresson, vale lembrar, já havia adaptado outro grande russo, Dostoievski (‘As Quatro Noites de Um Sonhador’). O protagonista é um inocente entregador de óleo diesel, punido por um crime que não cometeu. Enrolado por dois adolescentes, ele recebe uma nota falsa e vai preso por participação num assalto a banco. Enquanto está na cadeia, sua filha morre por falta de assistência. Colocado em liberdade, o inocente persegue uma velha senhora, a quem mata para roubar dinheiro. O crime é revelado pela sombra de um machado, mas antes disso já havia sido anunciado quando o pianista que toca um trecho de Bach (a ‘Fantasia Cromática’) quebra o copo. Enquanto isso, os verdadeiros criminosos, dois garotos ricos e amorais, ficam impunes. Lembro-me que Antônio Gonçalves Filho me disse certa vez que ninguém assiste a ‘O Dinheiro’ impunemente. É difícil, senão impossível, permanecer o mesmo após assistir a esse filme que agora saiu num DVD impecável. O filme do Bergman foi feito para TV, em 1969, entre ‘Vergonha’ e ‘A Paixão de Ana’, na fase mais radical do experimentalismo do linguagem do grande diretor, após ‘Persona’ (Quando Duas Mulheres Pecam), em 1966. O tema de ‘O Rito’ é a humilhação do artista, por meio do trio que representa para juiz implacável uma peça ameaçada de proibição. Gunnar Björnstrand e Ingrid Thulin, dois bergmanianos de carteirinha, estão no elenco. Um Bresson e um Bergman. Meu Deus! E viva a Versátil!