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Dois dias em Paris

Luiz Carlos Merten

22 Fevereiro 2007 | 13h55

Voltei! Cheguei ontem à noite em São Paulo, mas ainda não havia conseguido tempo para uma postagem, mesmo que rápida. Desde domingo, em Berlim, quando fui assistir ao filme de Zhang Yang, não me comunicava com vocês. Espero que tenham sentido falta, eu senti, mas tenho de confessar que o motivo que me manteve afastado durante os dois dias em que estive em Paris (segunda e terça; na quarta, fiquei quase todo o dia entre aeroporto e o vôo de quase 12 horas) foi absolutamente trivial, senão ridículo. Tenho um código de internet, que estou pensando em mudar, com um signo que não encontrei nos teclados franceses (juro!) e, quando finalmente encontrei, era numa tecla com mais quatro ou cinco signos e não houve ninguém, nem o funcionário do cyber café, que soubesse me dizer como fazer para chegar ao que queria. Terminei desistindo porque havia um monte de coisas para ver e fazer em Paris. Fui assistir a uma exposição maravilhosa sobre tesouros do antigo Egito, passeei de bateau mouche no Sena, fui à minha livraria preferida de cinema (a Reflets Médicis, na Rue Serpente, Quartier Latin) e fiz uma coisa que nunca deixo de fazer – fui à catedral de Notre Dame, não para rezar, mas para olhar mais uma vez para a beleza daquela composição gótica que, por si só, já é uma abertura para o divino. Sentar lá dentro e ficar olhando para aquelas colunas e vitrais, tão cheios de histórias, já são motivos mais do que suficientes para despertar, ou alimentar, meus vôos místicos. Mas Paris é um sonho de cinéfilo e eu vi, e revi, em dois dias, mais cinco filmes. Três são novos, e inéditos no Brasil – Coeurs, de Alain Resnais; Black Book, de Paul Verhoeven: e Inland Empire, de David Lynch. Dois foram reprises – Cria Cuervos, de Carlos Saura, que não revia há décadas (e saiu na França em cópia nova), e o Decameron de Pasolini. Vamos aos novos. Adorei Coeurs, mas de alguma forma o filme não satisfez minha expectativa. Resnais tem sido tão premiado, incluindo o Leão de Ouro em Veneza, que eu esperava mais, não sei o quê. Resnais é o primeiro a se definir como formalista. Coeurs é obra de um formalista de gênio, mas eu já passei da fase de me encantar só com a forma. Hoje em dia, são poucos os filmes de Resnais que vão além do puro exercício de linguagem para mim – casos de Hiroshima, um dos meus cults, e Providence, cujos 15 minutos finais representam o que há de mais sublime no cinema. De novo encontrei só a forma no filme do Lynch, pelo qual os franceses estão loucos. O diretor inaugura agora em março, acho que no Beaubourg, uma grande exposição de seus objetos e eles prolongam o universo bizarro de seus filmes. Inland Empre, como diz o próprio Lynch, foi concebido dentro da lógica, mas cabe ao espectador viajar dentro das imagens e construir seu filme. É o meu problema com ele. Nunca sei se gosto dos filmes do Lynch, pelo simples fato de que raramente consigo viajar naquelas imagens. Inland é cheio de referências. Começa num corredor, à Resnais (O Ano Passado em Marienbad), depois vira um filme dentro do filme, uma coisa abrindo na outra e sempre com aquelas mulheres que parecem se refletir num espelho. Laura Dern submete-se mais uma vez às loucuras (excentricidades?) do diretor, mas, como as personagens não têm densidade humana – na maioria das vezes são só símbolos visuais –, aquilo termina por me aborrecer. E o filme tem quase 3 horas – 2h52! –. como eu acho que poderia ter 1, ou 2. Afinal, se a gente é que vai construir… As cenas que remetem a Hitchcock, e são muitas, me fizeram lembrar do velho Alfred, que era um formalista, mas que em seus grandes filmes (Vertigo, a trilogia formada por Psicose, Os Pássaros e Marnie) foi fundo na investigação psicanalítica da complexidade da mente humana. A psicanálise, em Lynch, não me convence. Me parece truque. Não existe compaixão. É só exterior, do tipo ‘Olhem como sou brilhante!’ Não encontro o interior, por mais que busque. Termino por me desinteressar. Não entro naquele universo (acho que só entrei em O Homem Elefante, mas era outro Lynch, e em Veludo Azul, que, este sim, acho perturbador). Falta falar do terceiro filme, o do Verhoeven, que foi o que mais gostei, ou o único de que gostei de fato. Mas isso fica para o próximo post.

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