Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Doce/amargo

Cultura

Luiz Carlos Merten

24 Setembro 2011 | 22h36

Conversei ontem, ou anteontem, com Ziraldo sobre sua professora maluquinha. A uma observação minhas de que o filme era doce, ele reagiu com altos elogios ao quarteto criador – os diretores André Alves Pinto e César Rodrigues e os atores Paola Oliveira e Joaquim Lopes -, dizendo que gente assim tão doce não faria um filme amargo. Adorei a definição e acrescento que, desde que assisti à produção da Diler, tenho viajado nas lembranças. Repassei uma a uma minhas professoras do primário, no Grupo Escolar Gal. Daltro Filho. Dona Anita foi a primeira, no 1º ano, e sua pedagogia, bastante primitiva, consistia em bater na cabeça da gente com uma vara que ela usava para apontar o que escrevia no quadro-negro. Lembrei-me de uma colega, a Iolanda, que trocava P por B e era a vítima preferida de D. Anita, que batia na cabeça dela a torto e a direito. Depois vieram D. Maria Helena, no 3º ano, D. Jaci, a mais doce de todas, no 4º, e D. Nair, no 5º. Saltei a professora do 2º ano, que tonto, era D. Cecília, o nome de minha mãe, como estava esquecendo? Foram, todas importantes na minha formação e aqueles eram outros tempos. Acompanhei, estarrecido, duas histórias recentes, que li no jornal. Uma professora pediu ao aluno de 14 anos que desligasse o celular, que não parava de tocar  e perturbava o andamento da aula. Ele reagiu nocauteando a professora com um soco nas costas que a deitou por terra. O outro aluno deu um tiro na professora e se matou. Ela, no hospital, quando soube quem havia sido o autor do disparo, disse uma coisa que ‘me’ derrubou. “O D., não, ele é o mais bonzinho da aula.” Não sei exatamente como reagir a essas histórias, mas elas me perturbaram muito. O mundo das mentes enfermas. O garoto da primeira história era um Zé Pequeno – ‘Zé Pequeno, um caralho, ninguém, me manda desligar o celular.’ Se tivesse um revólver ele com, certeza teria fuzilado a professora, que não sobreviverias para manifestar sua tristeza. O outro garoto… Por que? Imagino a desolação da família, a perplexidade dos colegas. Pensei na D. Anita, que teria dado uma lambada na cabeça do guri, terapia do joelhaço, muito eficiente na ficção do Analista de Bagé. Mas os assuntos são graves. Antes até que a escola, a família deve impor limites. Nenhuma liberdade é absoluta, o direito de um termina onde começa o do outro etc. Regras básicas de civilidade que não se aplicam aos Zés Pequenos. Talvez a escola de ‘Uma Professora Muito Maluquinha’ seja uma fantasia – embora seja real na história pessoal de Ziraldo. Uma fantasia como a de Sempé, filmado por Laurent Tirard, ‘Le Petit Nicolas’. Tão bonitos os filmes, impregnados de uma nostalgia que talvez agrade mais aos adultos, mas que não escapa às crianças. Tão absurda – e cruel – a realidade. Tem gente que, infelizmente, já parece nascer amarga.