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‘Doce Pássaro…’

Luiz Carlos Merten

03 Junho 2009 | 10h49

Fui tantas vezes a Paris neste ano… Desde janeiro, para os Encontros do Cinema Francês, e mais tarde antes e depois de Berlim, de Cannes… Foram, no total, cinco ou seis vezes, somando um mês (ou quase). Pois gostaria de estar hoje na capital francesa. O dia 3 de junho é especial. Reestreia hoje nos cinemas, em cópia nova, um filme que adoraria rever. ‘Doce Pássaro da Juventude’ é de 1962. Richard Brooks já adaptara, quatro anos antes, outra peça famosa de Tennessee Williams com Paul Newman e, naquele filme, Elizabeth Taylor, ‘Gata em Teto de Zinco Quente’. No caso de ‘Sweet Bird of Youth’, o jovem Newman, na pele de um ‘gigolô’, divide a cena com Geraldine Page, como Alexandra del Lago, a estrela caída que vive fugindo do próprio fracasso, pagando pela companhia do garoto. Brooks, o cineasta da segunda chance, foi muito criticado porque, ao adaptar Tennessee Williams, ele teria edulcorado o uiniverso de transgressões do dramaturgo. Em ‘Gata’, Newman, que metaforiza a impotência do personagem usando muleta, vive lamentando a morte do amigo, e isso se reflete no seu casamento com Maggie, the cat. Só que não é simples amizade. O texto de Tennessee, mesmo em linguagem poética, deixa claro que havia algo mais entre eles, o velho homossexualismo caro ao autor, mas isso era ousado demais para a Hollywood de 51 anos atrás. No caso de ‘Doce Pássaro’, a gigolagem de Newman também é escanteada e ele vira um moço de recados de Alexandra, sonhando com uma segunda chance, como ela. Só como curiosidade, vale lembrar que em ‘Bonequinha de Luxo’, um ano antes, Blake Edwards também edulcorara o fato de Holly Golightly (Audrey Hepburn) ser garota de programa e George Peppard ser gigolô (de Patricia Neal). Ela era ‘excêntrica’, ele era aspirante a escritor e a coroa com quem ia para a cama, e que lhe dava dinheiro, era uma ‘mecenas’. Santa ingenuidade, mas o caso é que isso faz parte do charme dos filmes.
Vou abrir um parágrafo. Brooks fez, nos anos 60, filmes que compõem uma trilogioa, ou tetralogia muito crítica – ‘Lord Jim’, ‘Os Profissionais’ e ‘À Sangue Frio’, aos quais se pode acrescentar ‘Happy Ending’ (Tempo para Amar, Tempo para Esquecer). Uma das grandes cenas de Brooks – do cinema – é o diálogo de ‘Happy Ending’ em que Lloyd Bridges, o pai de Jeff e Beau, explica porque o casamento é tão importante. Porque, ao se casar, as pessoas não formam apenas uma família, célula da sociedade, mas elas montam uma casa e o aparelhamento dessa casa mantém a sociedade de consumo aquecida. Enquanto os casais consomem, a romântica Jean Simmons, mulher dop diretor (na vida) sonha com o casamento perfeito, com o final feliz que encerra os velhos filmes a que assiste na TV, mas a realidade, infelizmente, não é assim, ou não é sempre assim. (No caso deles, foi. Rubens Ewald Filho entrevistou a velhinha Jean Simmons e contou como ela ainda se emocionava ao falar de ‘Dick’, o amor de sua vida.) Sempre tive a maior admiração por Brooks – ‘Lord Jim’ e ‘Os Profissionais’ são filmes que carrego comigo. Mas antes disso já havia gostado de outros filmes dele que também se integraram ao meu imaginário. ‘Os Irmãos Karamazov’ edulcora Dostoievski, e daí? O velho David Oppatoshu e o discurso final, cheio de grandeza, de Yul Brynner (como Dmitri), me emocionaram muito quando vi o filme pela primeira vez. Nunca o revi, talvez hoje aquilo me parecesse ingênuo, não sei, mas a lembrança é inesquecível. Lembro-me perfeitamente quando assisti a ‘Doce Pássaro’, num domingo à tarde, dia invernal. Saí do cinema e já era noite. Lembro-me de que fui a pé para casa – era longe – com o filme (re)passando na minha cabeça. Adoraria rever ‘Doce Pássaro’ no cinema. É uma pena que, aqui, não tenhamos a facilidade para retomar os clássicos que Paris, como capital da cinefilia, oferece a todo momento.