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Luiz Carlos Merten

27 Julho 2010 | 09h58

Fui ver ontem o show de Amelita Baltar no Teatro Bradesco, do Shopping Bourbon. Havia entrevistado Amelita para o ‘Caderno 2’, mas perdera seu show anterior – na série com Décio Otero e Márika Gidale – por causa da viagem para o México. Depois, veio a Hungria, Budapeste, mas ontem consegui vê-la no palco. Ou melhor, revê-la. Havia visto muitos shows de Amelita – em Buenos Aires, em Porto. Com e sem Astor Piazzolla. Ou melhor, sempre com Piazzolla, porque, como ela diz, ‘ele’ – seu espírito – está sempre por aí, circulando. Amelita cantou ‘Maria de Buenos Aires’, ‘Balada para un Loco’, ‘Balada para Mi Muerte’, sua favorita. É uma verdadeira atriz da canção. Interpreta, põe dramaticidade. Entre uma canção e outra, para destensionar de tanta carga dramática, conta histórias (e piadas). Acho-a ‘bárbara’, para repetir um adjetivo que os argentinos – e os portenhos – usam bastante. Na entrevista, Amelita me havia contado que era uma cantora apreciada de folclore quando aceitou, muito inconsciente, o convite de Piazzolla e Horacio Ferrer para fazer a ópera/tango ‘Maria de Buenos Aires’. De repente, virou uma mulher odiada, porque Piazzolla estava matando o tango tradicional, de Gardel. Matou? Até hoje o tango tradicional tem seguidores – muita coisa para turistas – e o próprio Piazzolla tem sido desvirtuado por arranjos que talvez não aprovasse, ou que certamente não aprovaria, mas ele era o primeiro a querer mudar as próprias composições. Não sou nenhum expert, mas o disco que reúne Piazzolla e Gerry Mulligan – ‘Reunión Cumbre’ – é um dos dez da minha vida, com a ‘Misa Criolla’ de Ariel Ramirez e a cantata de ‘Santa Maria Iquique’ com o Quillapayun. ‘Adiós Nonino’, ‘Años de Soledad’, Piazzolla era gênio e Amelita foi – é – a voz que celebrou e mantém viva sua revolução. O espetáculo foi lindo, e eu amo quando ela canta ‘Chiquilin de Bachin’, mas gostaria de ouvi-la cantar alguma coisa que não tango, e tango/canción. Seria ‘Agustina y el Mar’, que Mercedes Sosa também cantava – divinamente –, mas eu prefiro a versão de Amelita. O curioso é que gostando, e me emocionando, não viajei na nostalgia, nas lembranças dos meus verdes anos em Buenos Aires, quando descobria a latinidad. O palco estava muito vivona minha frente para eu ter tempo de sentir saudade. Lúcia, minha filha, e Doris, minha ex, estavam ontem em Buenos Aires. Devem estar retornando agora para o Brasil, em voos separados. Lúcia vem diretamente para São Paulo, Doris, para Porto. Mas me dá uma coisa, sim. Quando Amelita canta Buenos Aires, com referências tão concretas – a ruas, lugares –, é difícil não me projetar. Ela diz que ama São Paulo, que é a cidade que mais ama. Eu amo Buenos Aires. Quiando fui com Dib Carneiro, Gabriel Villela e Cláudio Fontana para a estreia portenha da peça do Dib – ‘Adivinhe Quem Vem para Rezar’, rebatizada como ‘Por Tu Padre’, com Federico Luppi –, deixava o trio pelo prazer de andar sozinho pela cidade. Corrientes – onde andará tres/quatro/ocho? –, Lavalle, Florida. Foi lá, em Buenos Aires, e em Montevidéu, que fiz muito da minha formação como cinéfilo. Até por isso, carrego comigo essas cidades que nuinca deixaram de me encantar.

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