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Luiz Carlos Merten

07 Março 2008 | 08h43

Fui ver na Cinemateca, no ciclo ‘Perfis Femininos’, que homenageia o Dia Internacional da Mulher (amanhã), o filme que Jean-Jacques Beineix adaptou da história de Delacorte, sobre diva do bel canto que se recusa a ser gravada, um rapaz faz uma gravação pirata e fica no centro de uma verdadeira caçada. Morria de vontade rever ‘Diva’, que tem uma participação excepcional da cantora negra Wilhelmina Wiggins Fernandez – o que é aquela mulher? –, assim como adoraria rever ‘A Lua na Sarjeta’, que Beineix fez a seguir, baseado em David Goodis, com Gérard Depardieu e Nastassia Kinski. Jean Tulard conta uma história que faz sentido em seu Dicionário de Cinema. Os críticos franceses ignoraram ‘Diva’, o filme foi descoberto (e virou cult) nos EUA, ganhou um monte de Césares (o Oscar do cinema francês) e os críticos se vingaram demolindo ‘A Lua’, sobre este homem que tenta vingar a irmã, estuprada e morta num beco. Beineix surgiu no começo dos anos 80, pertencente à geração de Leos Carax e Luc Besson. Foram tratados como areia do mesmo saco e xingados pelos críticos (no Brasil, inclusive), como pós-modernos, publicitários e o escambau. Não é verdade. Walter Salles adora ‘Sangue Ruim’ e Jacques Rivette põe no céu ‘Pola X’, explicando que foi o filme de Carax que o levou a escolher Guillaume Depardieu para o papel do militar em ‘Ne Touchez pas la Hache’, a sua Duquesa de Langeais. Carax é bom, Beineix idem. Os personagens secundários de ‘Diva’ são maravilhosos e o matador, então, como assinala Jean Tulard, parece saído de uma série noire. Sobre Beineix, tenho uma história curiosa. Há anos visito regularmente Paris e não me lembro mais quando foi que ele lançou uma autobiografia precoce. Acompanhei o livro desde as estantes das livrarias até os balcões de ofertas, na calçada do Boulevard Saint Michel. Da última vez, em fevereiro, estava a 6 euros. Quase comprei, mas é volumoso – 500 páginas. Muito pesado para carregar numa mala que já estava estourando. Beineix é mais novo que eu – nasceu em 1946 – e devia ter uns 50 anos quando escreveu sua autobiografia. Por que? Sempre adorei seu texto de abertura – ‘Porque agora me lembro de tudo, amanhã o Alzheimer poderá me atingir etc’. Há, no cinema de Jean-Jacques Beineix, essa atração pelas mulheres – Wilhelmina, Nastassia, Béatrice Dale (em outro cult, ‘Betty Blue’), Isabelle Pasco (deslumbrante como domadora de leões, em ‘Rosaline e os Leões’). Existem vários filmes que gostaria de rever e até ver, no ciclo da Cinemateca – o Kurosawa, ‘Juventude sem arrependimentos’, que não conheço. Mas posso até decepcionar vocês – tem um filme que adoro. ‘Um Sonho de Primavera’ (Enchanted April), de Mike Newell. Apesar do seu fracasso em ‘O Amor nos Tempos do Cólera’ – a história de García Márquez está lá, mas falta o essencial, a paixão -, tenho o maior respeito, ou melhor, adquiri, com o tempo, respeito pelo Newell, com seu ecletismo, que lhe permite abordar todos os gêneros e estilos. Não duvidaria se me dissessem que ele ia fazer um western – o cara tenta tudo. ‘Um Amor de Primavera’ conta a história dessas inglesas cansadas do frio e da chuva de Londres, que alugam uma villa na Itália. Elas vivem um abril encantado, conhecem a sedução dos latinos, resolvem seus problemas em casa etc. Parece convencional, mas me encanta a direção de atrizes – se bem que não deve ser muito difícil dirigir Miranda Richardson, Polly Walker, Joan Plowright e Josie Lawrence. Na entrevista que me deu no Rio, no ano passado, quando veio mostrar ‘O Amor nos Tempos do Cólera’, Newell me disse que é casado com uma atriz e sabe muito bem o que representa para elas viver personagens muitas vezes antagônicas ao seu temperamento. Citei para ele Fernando Pessoa – ‘O artista é um fingidor’ – e o Newell disse que é bem isso, acrescentando que ninguém finge por muito tempo, impunemente. Voltando a ‘Um Amor de Primavera’, acho o filme ‘prazeroso’. E eu tenho de confessar que gosto dos perfis femininos do diretor – ‘Dançando com Um Estranho’, ‘O Sorriso de Mona Lisa’ – que tem tudo a ver com ‘Longe do Paraíso’, mas o filme de Todd Haynes é melhor –, ‘Abril Encantado’. Quem diria! Eu aqui tecendo loas a Mike Newell!