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Luiz Carlos Merten

11 Maio 2009 | 08h41

PARIS – Fui hoje de manhã ao Bon Marché, uma loja chic de departamentos, na Rue de Sèvres, para ver a exposição Divas Italianas. Quase desisti. Com tantas coisa para ver em Paris e amanhã eu já vou para Cannes… Ainda bem que fui. As fotos são deslumbrantes, evocando cenas de filmes ou bastidores de filmagens célebres. Claudia, Gina, Sophia, Silvana, Sylva, Lea, Monicca, Giovanna, Antonella, Eleonora, Steffania, Virna… Se vocês não sabem de quem estou falando é porque não conhecem nada do cinema italiano por volta de 1960. La Cardinale, Lollobrigida, Loren, Magano, Koscina, Massari, Vitti, Ralli, Lualdi, Rossi Drago, Sandrelli, Lisi… Uma foto de Silvana Mangano é uma loucura. Ela olha meio de viés para a câmera, os braços levantados a diva não se depilou. Imagino o que representava uma foto daquelas. Os punheteiros, sorry, olhavam aqueles pelos e pensavam noutros… Claudia Cardinale escreve a apresentação do catálogo da exposição e (re)conta uma história que já conhecia. Durante a rodagem de ‘Rocco’, a cena da confusão na rua, na saída da academia de boxe, Luchino Visconti gritava – ‘Non ammazzare la Cardinale’ (espero ter escrito certo). Era um pequeno papel, mas ele já protegia sua futura estrela em ‘O Leopardo’ e ‘Sandra’, que no Brasil se chamou… Como é mesmo o título? Deus! Devo estar ficando caduco para esquecer o título de um filme do meu mestre Visconti. Ah, sim, ‘Vagas Estrelas da Ursa’, como o poema de Giacomo Leopardi, que Mario Soldati sugeriu a Visconti… Na entrada da exposição, há uma frase de Italo Calvani que diz mais ou menos o seguinte – que o único filme em que temos todos a ilusão de ser espectadores é o que conta a história de nossa(s) vida(s). Intrigante, não? Sempre gostei de westerns, de filmes de aventuras, mas o que fez a minha formação, humanista e até cinematográfica, foi o cinema italiano do fim dos anos 50. Não, não vou ser pretensioso dizendo que eram os clássicos do neo-realismo, Rossellini e Visconti. O que eu curtia eram as aventuras mitológicas dirigidas – só depois soube – por Vittorio Cottafavi e Riccardo Freda, ou então as comédias de Dino Risi e Luigi Comencini. Até hoje me lembro de ‘Mulheres Perigosas’, que teve um impacto devastador sobre mim. A exposição sobre as divas tem imagens de um ‘divo’, Mastroianni, mas são elas que predominam. Numa série de monitores, é possível acompanhar as imagens em movimento. Sophia em ‘Matrimônio à Italiana’, Claudia em ‘A Moça com a Valise’, Marcello em ‘Divórcio à Italiana’, Monicca em ‘A Aventura’ (cuja versão restaurada espero rever em Cannes Classics). De tudo o que vi na exposição, duas fotos me caíram como raios. No alto do Duomo, em Milão, pousado sobre um parapeito, com as torres de fundo, o… Como se chama aquele negócio que amplia a voz e os diretores iusavam nos sets? Pois bem, a foto mostra o tal aparelho com o nome gravado, Visconti, num intervalo de ‘Rocco’. E a outra imagem, também de ‘Rocco’. Visconti abrindo os braços em cruz e dirigindo Renato Salvatori, de faca na mão, explicando como Simone deve apunhalar Nadia (Annie Girardot) na cena do parque, no desfecho da relação entre ambos. Não conhecia a foto. Fiquei ali horas, parado, olhando, conjeturando. Na época, a censura italiana quis proibir ou pelo menos cortar o filme, achando excessivo o número das punhaladas. Visconti insistia que o excesso era fundamental, que os chamados ‘crimes de amor’, as vendettas meridionais, eram assim mesmo, excessivas e irracionais. A exposição fez um link na minha cabeça com um livro que folheei numa dessas livrarias em que entrei (e agora me arrependo por não haver comprado). O livro, em francês, é uma crônica de Roma nos anos 50, do neo-realismo à doce vida, quando o mundo e o cinema italianos estavam mudando. Na capa, há uma foto de Audrey Hepburn em ‘A Princesa e o Plebeu’ (Roman Holiday), de William Wyler. Como cereja do bolo, uma entrevista de Bernardo Bertolucci, lembrando aqueles anos. Bernardo fala do pai, Attilio, poeta e cinéfilo e que foi quem despertou nele o amor do cinema. Attilio era crítico e, a partir de determinado momento, levava o filho garoto para ver os filmes com ele. É assim que Bertolucci se lembra de haver assistido a ‘La Dolce Vita’ numa versão que ainda não era a final. A montagem já era a definitiva, mas na trilha os atores falavam diversas línguas. Mastroianni em italiano, Anita Ekberg em inglês, Anouk Aimée em francês. Bertolucci conta que aquela Babel talvez seja a sua mais bela lembrança de cinema e que a voz do próprio Fellini aparecia com frequência, dando instruções, nessa versão primitiva, ainda um work in progress. Mas há uma história melhor no livro. Attilio e um amigo cujo nome não lembro frequentavam Cesare Zavattini. Tentavam de todo jeito arrastá-lo para o cinema, mas o futuro papa do neo-realismo não se interessava por cinema e só queria saber de teatro. Um dia, Attilio Bertolucci conseguiu arrastar Cesare Zavattini para ver ‘Em Busca do Ouro’, de Charles Chaplin. O resto é história. Cesare se apaixonou pelo cinema, e o cinema nunca mais foi o mesmo. Bertolucci conta que seu pai sempre teve muito orgulho por, indiretamente, ter ajudado fazer a grandeza do neo-realismo. Linda história, não?