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Luiz Carlos Merten

26 Julho 2009 | 14h19

Pode ser que uma pauta que fiz na sexta, no final da tarde, tenha me preparado para isso, me tornado mais sensível ou atento ao tema… Vai ficar uma referência cifrada, porque a matéria ficou para a edição de terça-feira do ‘Caderno 2’ – já escrevi – e eu não quero me ‘furar’, ou furar o jornal, antecipando-a. Mas, enfim, acho que existe um eixo de negritude em São Paulo ali no centro. Um dos pontos é, obviamente, a igreja de Santa Ifigênia, no Largo Paissandu, que visitei hoje mais uma vez. Já contei que, nos fins de semana, sou ‘proletário’. Sábado e domingo são meus dias de andar de ônibus. Pego o Morro Grande, que me traz ao ‘Estado’, em frente à igreja. Gosto de entrar lá, não para rezar, mas para olhar. O padre, os oficiantes, a maioria do público é formada por negros, afro-descendentes (para ser correto). Os santos, muitos (ou alguns), são pretos. Vendo aquela comunidade tão animada – todo mundo ali dentro se conhece – tenho a impressão de que a religião lhes deu uma identidade, uma cidadania. É um pouco o que João Moreira Salles mostrou em seu documentário sobre a construção daquela igreja evangélica… Em qual favela mesmo? Todo muindo critica os evangélicos, o charlatanismo, o fato de os pobres darem o pouco que tem como dízimos no templo. Mas o João mostrou no filme dele que, na verdade, aquelas pessoas humildes estão devolvendo o que ganharam. O templo, a religião, lhes deu a cidadania que a política e a organização social lhes negam. Confesso que passei a enxergar as coisas de forma diferente, desde então. Aquela igreja (católica) do Largo Paissandu me passa uma impressão parecida. Pois bem. Ela é uma ponta do eixo a que me referi no começo. A outra é o Anhangabaú. Ontem, estava montada ali uma barraca e o ‘samba autêntico’ estava apresentando uma roda de samba. Foi lindo. As pessoas, e a maioria era de negros, dançavam com aquela ginga que tanto me fascina (não é por acaso que sou carnavalesco doente). Quisera ter aquela mobilidade nos pés. E não era só a música. Afinal, aquele bando de gente, sob a garoa, muitos com a latinha de cerveja na mão, podia ser visto com outro olhar. Com um pouco de preconceito, seríamos – eu estava lá, mesmo sem cerveja – vagabundos, quem sabe? Mas o discurso era muito político e o porta-voz do ‘samba autêntico’, que apresentava a roda de samba, destacava justamente que aquilo fazia parte de um projeto de ocupação do centro, que já ocorre na periferia e que aquela ocupação de espaço tinha justamente um objetivo cultural histórico, que era o resgate das origens do samba na cidade e, com ela, a afirmação da negritude. Foi muito bacana. Existe um portal do ‘samba autêntico’, em que o grupo – é um grupo? Uma instituição? – anuncia suas atividades. Vão lá na próxima roda de samba, sem medo nem susto. Os taxistas meus amigos ali do Largo me informaram que aquele cinema pornô está sendo adquirido pela Prefeitura para virar teatro. Já pensaram? Se o Centro Cultural do Correio for realmente incrementado, um teatro naquela ponta, com a Galeria do Rock e a Galeria Olido ao lado, mais o Brahma, que agora ocupa toda a esquina da Ipiranga com a São João, e o Marabá PlayArte poderiam – poderão – muito bem levantar o centro. Afinal, pertinho dali, a Praça Roosevelt, que também era deteriorada (muito) ganhou outro status. No fim de semana passado, como parte das comemorações dos 20 anos de morte de Luiz Gonzaga, houve um tributo ao rei do baião. Alceu Valença fez um show. Lá fui eu. Me encantei de ver gente humilde dançando ao som do Alceu no vale. O baile surgiu ao natural. Eu olhava e viajava. Toda aquela gente dançando forró no Anhangabaú… Essa metrópole quatrocentona tem vertentes negra, nordestina, japonesa, italiana… Nada a ver, mas eu me lembrava de Bergman, do desfecho de ‘Gritos e Sussurros’, as três irmãs e a aia, todas de branco, com aquelas sombrinhas, passeando naquele parque. A vida vale a pena, nem que seja por um breve momento. Um passeio, um bom forró…

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