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Luiz Carlos Merten

12 Outubro 2006 | 09h37

Conversei um tempão, ontem de manhã, pelo telefone, com o repórter Marcelo Miranda, do jornal O Tempo, de Belo Horizonte. Ele me entrevistava para uma matéria sobre divas, que deve sair na edição de domingo (e você poderá acessar pelo site www.otempo.com.br). O mote do Marcelo, o ‘gancho’, como se diz no jargão jornalístico, é a Scarlett Johansson no filme do Brian De Palma, Dália Negra. Virou, esse filme, um território de disputa, um campo de batalha. Prepare-se porque vem aí Os Infiltrados, o novo Martin Scorsese, e vai ser a mesma coisa. Não entendo, sinceramente, como caras que proclamam a todos os ventos que adoram Arnaud Desplechin, Pedro Costa ou Philippe Garrel, possam colocar no mesmo saco De Palma, Scorsese e Robert Altman. Mal comparando, quando comecei a escrever, nos anos 60, em Porto Alegre, havia reconhecimento para o cinema de Fred Zinnemann, de William Wyler, que eram os talentos oficiais de Hollywood. Hoje são o De Palma, o Scorsese, o Altman, que muda o tema, o ambiente, a ‘história’, mas não a fórmula de fazer cinema. Voltemos às divas e a Scarlett Johansson. Se você for ao dicionário encontrará, como definição de diva, deusa e a explicação – é um italianismo, o epíteto aplicado a uma cantora notável (de ópera). O termo generalizou-se e hoje vale para tudo, mas em geral se agrupam sob o mesmo termo categorias diferenciadas, como a vamp e a mulher fatal. Sobre a Scarlett, de quem gostei tanto em Encontros e Desencontros e Match Point, cujo título em português eu nunca me lembro, confesso que me decepcionou em Dália Negra. A Scarlett glamourosa e fatal com aquela piteira me pareceu muito brega, mas até compreendo que aquilo atue no inconsciente das pessoas. Só acho graça que a falsidade (intencional, é verdade) do De Palma ganhe tantas adesões. É como se ele quisesse dizer que não se podem fazer mais filmes noir, como antigamente, até porque as próprias mulheres fatais ficaram mais humanas (a Scarlett, no fim de Dália Negra). É verdade que, para chegar a essa reflexão, o De Palma passou por Femme Fatale, no qual a Rebecca Romjin-Stamos, para o meu gosto pessoal, é mais Rita Hayworth do que Scarlett, com piteira e tudo, jamais será. Acho graça porque reflexões muito mais ousadas sobre o artifício no cinema (cito a Satine de Nicole Kidman em Moulin Rouge, de Baz Luhrmann?) me parecem muito mais densas e profundas e tem gente que acha ‘insuportável’. Seja como for, as divas possuem essa qualidade sobre-humana, ‘divina’. Ninguém transforma uma mulher comum em diva. Ela precisa ter algo mais. Na ópera, a diva das divas foi Maria Callas, esculpida por Visconti, que descobriu nela, além da voz, a capacidade dramática de atuar. E houve, no cinema, a vamp, categoria que surgiu com A Musidora de Louis Feuillade, o autor de Fantomas, de Judex, de Les Vampires, um gênio morto em 1925 e cuja carreira se desenrola principalmente nos anos 10, quando o cinema ainda engatinhava como linguagem. Depois de Musidora houve Marlene, esculpida por Josef Von Sternberg e, contemporânea dela, a Garbo, uma verdadeira esfinge, na tela e na vida. Garbo e Marlene viviam no Olimpo do cinema. Marilyn, nos anos 50, marcou a passagem da vamp à condição de mulher e, nos 70, Jane Fonda consolidou a humanização, sendo a primeira grande estrela de Hollywood a integrar passeatas, por exemplo. É uma longa e atraente história da qual se percebem vestígios em Dália Negra, mas o filme é um trash de luxo. Se pelo menos as pessoas dissessem que é cult. O cult não precisa ser bom. É o ‘eu gosto e pronto’. Seria mais fácil entender tanto entusiasmo por Dália Negra.

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