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Cultura » Diva/’Divã’

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Luiz Carlos Merten

20 Abril 2009 | 12h17

Fui rever ontem à noite ‘Divã’, no Cinemark do Shopping Eldorado. A sala estava lotada e a plateia reagiu muito bem ao filme de José Alvarenga Jr. com Lília Cabral. A atriz é maravilhosa, uma verdadeira diva (do teatro, cinema e TV), mas quero dizer que me emociona muito a interpretação de Alexandra Richter, como a amiga. Foi uma bela sessão de cinema. O público riu bastante e, nos momentos dramáticos, o silêncio só era quebrado por gente fungando, aquela coisa de quem reprime o choro. O filme ‘parece’ de mulher, mas estava funcionando muito bem para a plateia masculina. Havia gostado de ‘Divã’ quando vi o filme pela primeira vez. Gostei mais. É um filme sobre perdas – e recomeço, claro –, mas dessa vez foi a parte ‘pesada’ que ficou comigo. Saí do cinema com um engasgo, a saudade de amigos queridos que permanecem comigo (na lembrança), mas que gostaria de reencontrar para um abraço. Na entrevista que me deu, Lília Cabral disse que Martha Medeiros, autora do livro, escreve a sério sobre assuntos que são da maior relevância – amor, morte, sexo –, mesmo que, eventualmente, se possa perceber um certo deboche (e esse deboche fornece material para que a atriz exercite seu humor). Não sei, não, mas a Total Entertainment pode estar emplacando outro sucesso de público, após ‘Se Eu Fosse Você 2’. Basta apenas o boca a boca funcionar. Aliás, já deve estar funcionando. A própria Walkiria Barbosa, uma das produtoras, me informou agora de manhã que o filme fez 1100 espectadores por cópia no fim de semana. Confesso que me toca ver o público vibrando com um filme brasileiro. Lembrei-me de Paulo Emilio Salles Gomes, que dizia que o melhor filme estrangeiro não vale o pior filme brasileiro, no sentido de que esse último é que põe nossa cara na tela. Quando jovem, eu discutia muito a frase de Paulo Emilio. Na única vez que o encontrei para uma entrevista, em Porto Alegre, eu era um jovem crítico e jornalista. Havia visto ‘Gritos e Sussurros’ na Argentina e estava numa cruzada para que o filme fosse liberado pela censura, que queria cortar cenas importantes. Não sei como não me prendiam, mas eu trabalhava na ‘Folha da Manhã’ e ficava relatando na minha página – que já tinha – todas aquelas imagens que os militares queriam suprimir. O corte de Ingrid Thulin, com o caco de vidro, na própria vagina, no filme do Bergman; a cena da tortura com a bandeira brasileira em ‘Estado de Sítio’, de Costa Gavras. Naquela época – perdão, Lygia Fagundes Telles –, cheguei a pensar que o ‘velho’ (Paulo Emílio) era maluco, porque ele parecia não estar nem aí para ‘Gritos e Sussurros’. Estava mais interessado na receptividade do público para ‘A Viúva Virgem’, de Pedro Carlos Rovai, com Adriana Prieto, que arrebentava nos cinemas. Hoje, com todo meu amor por Bergman, consigo entender Paulo Emilio muito mais. Sem nenhum preconceito, ele estaria querendo identificar e entender o que filmes como ‘Se Eu Fosse Você 2’ e – espero – ‘Divã’ acrescentam às pessoas. São filmes sobre relacionamentos, bem menos rasos – bem mais ‘densos’ – do que parecem.