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Luiz Carlos Merten

04 Dezembro 2007 | 15h08

Vamos por partes, como diria o esquartejador. Não sei se já havia falado com vocês, mas algumas publicações francesas deram grande destaque aos 20 anos de ‘Betty Blue’, que virou cult de toda uma geração que se identificou com as neuroses de Béatrice Dalle e Jean-Hughes Anglade no filme de Jean-Jacques Beineix. Perda, loucura, morte, o erotismo de Béatrice (que era, ou é, cleptomaníaca na vida), a piração de Anglade (lembram-se dele em ‘Rainha Margot’, de Patrice Chéreau?), tudo isso contribuiu para fazer de ‘Betty Blue’ uma obra de culto (e o filme tinha aquele título original insólito, para se dizer o mínimo – ’37º 2 Le Matin’). Pois cheguei em Los Angeles e descobri que os norte-americanos estavam alvoroçados com outra efeméride – os 25 anos de outro cult de Beineix, ‘Diva’, relançado em cópias novas (restauradas) em cinemas de arte. ‘Diva’ tem uma história curiosa. O filme foi um tremendo fracasso de crítica quando estreou na França. Descoberto pelo público, ‘Diva’ foi referendado pela crítica dos EUA e terminou ganhando uma chuva de Césares (os Oscars do cinema francês). Baseado numa história de Delacorta, ‘Diva’ já esboça o romantismo que se tornou mais acentuado em ‘Betty Blue’ e, antes daquele filme, ‘A Lua na Sarjeta’, adaptado de David Goodis. Beineix ama o universo noir. Vêm dele as referências que fazem do autor um pós-moderno. ‘Diva’ continua, ou é, 25 anos depois – não o havia assistido antes – perturbador. A história diz respeito a esse entregador, fascinado pelo bel canto, que grava clandestinamente o concerto de uma diva (Wilhelmina Wiggins Fernandez) que se recusa a registrar sua voz, acreditando somente na performance ao vivo. A gravação atrai o interesse de colecionadores e, para complicar, é confundida com outra, em que uma prostituta denuncia a corrupção policial (e, por isso, é morta). Me impressionou muito a presença da diva – Wilhelmina é fantástica – e o filme ainda tem a perseguição de lambreta no metrô, a garota oriental cleptomaníaca que desencadeia o jogo de duplos, tudo isso realçado por uma das mais brilhantes fotografias que já vi, assinada por Philippe Rousselot, que trabalha com duas cores básicas (azul e amarelo). Não sei se algum distribuidor independente vai se atrever a trazer ‘Diva’ para o Brasil, mas seria interessante. Beineix pertence a uma geração que foi rotulada como de ‘neobarrocos’, incluindo Léos Carax e Luc Besson. A crítica, há 20 anos, caía matando em cima deles por causa da estética chamada de ‘publicitária’. Não sou um grande fã de Besson, que virou o superprodutor que todo cinéfilo sabe, mas Beineix e Carax não são farinha do mesmo saco. Adoraria rever ‘A Lua na Sarjeta’, com Nastassia Kinski e Gérard Depardieu, porque tenho de admitir que o esteticismo de Beineix me seduziu quando vi o filme há décadas. E, quanto a Carax, ‘Boy Meets Girl’ e ‘Sangue Ruim’ são muito interessantes e, se o diretor decepcionou com os excessos pós-modernos de ‘Os Amantes da Pont-Neuf’, ‘Pola X’, com suas cenas de sexo explícito, foi um choque e uma revelação para mim. Entendi perfeitamente quando Jacques Rivette, em Berlim, em fevereiro, explicando porque havia escolhido Guillaume Depardieu para o papel do general de Montriveau não deixou por menos e disse – depois de assisti-lo em ‘Pola X’, um grande filme subestimado (definição de Rivette), não havia mais dúvida de que Guillaume é um dos maiores atores da França. E foi Carax que lhe deu a grande chance.

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