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Direito de ‘olhar’

Luiz Carlos Merten

11 Maio 2008 | 10h32

Brinco com minha colega Leo, Leonirce Brito, que todo dia diz que reza para o Senhor pela minha conversão. Não creio que possa me definir como ateu, sou mais agnóstico e a verdade é que não recebi nenhum tipo de educação religiosa. Fui batizado, mas não segui na doutrina, não fiz a primeira comunhão, o que não me impede de visitar igrejas, um pouco por interesse arquitetônico – fiquei maluco lá dentro da Catedral de Toledo e outra das coisas mais belas que existem é assistir, no domingo, à missa de orgão na Notre Dame, em Paris – mas também porque, por exemplo, quando passo pela igreja de Santa Ifigênia, no Largo Paissandu, acho linda a devoção dos fiéis. Passei lá hoje, antes de vir para o jornal. A comunidade é predominantemente negra, o padre é negro. Me lembra Leo McKern. Ele fez hoje uma homilia em homenagem ao Dia das Mães que foi muito bonita e aí entrou o culto – ‘Senhor/Tende piedade de nós…’, cantado por uma comunidade fervorosa. Houve uma época em que a minha geração, de esquerda, deplorava a religião como ópio do povo, mas eu nunca subestimei o valor da religião na construção da cidadania, por aquilo que ela pode levar a pessoas que, de outra maneira, não encontrariam nenhuma forma de elevação, e não apenas espiritual. Acho emocionantes os documentários do Coutinho e do João Moreira Salles sobre religiões. Sempre me lembro do Érico Verissimo, de ‘O Tempo e o Vento’, no qual o personagem do comunista, na parte contemporânea da história, põe tanto fervor na descrição da Passionária que viu, durante a Guerra Civil Espanhola, e acho que… quem? O Floriano? – não, tinha de ser alguém mais cínico –, dizia que ele teve ali a sua visão de Nossa Senhora. Agora que já devaneei bastante, vamos às coisas práticas da vida. Depois de cortar o cabelo, ontem, percorri todas as bancas do Centro atrás das revistas francesas de cinema, mas elas não chegam mais, agora que mudaram de distribuidor. Não são revistas que tenham grande consumo – ‘Cahiers’, ‘Positif’, ‘Première’, ‘Studio’ –, mas elas chegavam via uma distribuidora pequena, a Leonardo da Vinci. Mal comparando, é como esses filmes de arte que a Lume e a Versátil distribuem e que vendem algumas centenas de unidades e não se comparam aos blockbusters, mas são importantes pelo resgate de clássicos. Já pensaram se a Sony e a Warner comprassem essas distribuidoras para impedir a circulação? Pelo visto foi o que ocorreu no mercado editorial. Já disse que nem leio as revistas. Às vezes, dou uma folheada e só, mas esta coisa de colecionador é fogo. Depois que a gente inicia uma coleção, é difícil largar no meio. Mas, enfim, consegui ontem uma ‘Studio’, que folheei agora de manhã, em casa. O número em questão tem uma entrevista de Brian De Palma, sobre ‘Redacted’, que não li, mas cujo título me pareceu muito atraente – De Palma, pelo visto, substitui o conceito do direito de ‘autor’ pelo direito de ‘olhar’. Interessante… Segui folheando e descobri – vocês vão descobrir no próximo post, porque este já ficou enorme.

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