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Luiz Carlos Merten

05 Dezembro 2007 | 13h36

Em Los Angeles, estava no Beverly Hilton, que fica próximo à Avenue of the Stars, onde se localiza o Century Plaza, sede da Fox. Na saída do hotel, rumo ao aeroporto, passei pela Pico Highway e, na altura da porta de serviço do estúdio, havia um engarrafamento provocado por manifestantes – grevistas portando cartazes da Writers Guild of America. Não conheço tanto os roteiristas a ponto de identificar, de passagem, se havia algum top de linha entre os manifestantes, mas eram um grupo grande e que incluía gente de diferentes faixas etárias, desde velhinhos até jovens, cada um na sua, de tênis ou de terno. A greve continua forte e o próprio Jerry Bruckheimer, cada vez mais engajado na produção de TV, acha que já é mais do que tempo de as partes pararem com intransigência e negociarem, sob pena de haver um risco de colapso. O legal é que o produtor de ‘National Treasure 2 – Book of Secrets’, o grande mogul de Hollywood na atualidade, acha o recurso (a greve) legítimo. Ou seja, uma velha arma do sindicalismo, que data dos primórdios dos combates socialistas – lembrem-se do professor Sinigaglia, interpretado por Marcello Mastroianni, no genial ‘Os Companheiros’, de Mario Monicelli –, continua se mostrando eficiente em plena globalização. Muito interessante. Não achei que aquele fosse um grupo de dinossauros, mas a tal modernidade está balançada (e empenhada numa quebra de braço que, independetemente do resultado final, já mostrou que existem fissuras no admirável mundo novo). Ainda sobre greve. A imprensa norte-americana deu grande destaque à atitude de outros grevistas, os técnicos que estão parando a Broadway e já provocaram prejuízos de milhões de dólares. A categoria fez uma parada (um break) no próprio movimento para que Elizabeth Taylor pudesse apresentar seu espetáculo ‘Love Letters’, em que James Earl Jones (a voz de Darth Vader na série ‘Star Wars’) e ela lêem, como diz o título, cartas de amor escritas por grandes escritores e poetas, bem como anônimos. O motivo da parada – o espetáculo é beneficente, em prol do instituto que Liz mantém há anos para estimular pesquisas sobre aids e atividades de apoio a aidéticos. Assim como acho bacana o movimento dos grevistas – velho resquício do sindicalista que já fui –, acho legal que uma personalidade mítica como Liz Taylor tenha conseguido quebrar o que nenhum sindicato patronal pôde fazer na Broadway. O retorno às atividades dos técnicos, por uma causa nobre. Sabe aquela babaquice – toda transformação começa por um pequeno passo etc? E se não for babaquice?