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Luiz Carlos Merten

04 Março 2009 | 13h05

Peter Bogdanovich realizou seu documentário ‘Directed by John Ford’ em 1971. Pelo menos, foi o ano do lançamento, entre ‘Targets’ (Na Mira da Morte), em 1968, e ‘A Última Sessão de Cinema’, em 72. O livro ‘John Ford’ baseia-se em grande parte numa entrevista que o c rítico e cineasta fez com o grande diretor de westerns – embora seja reducionismo catalogar John Ford somente por seus bangue-bangues, por melhores que sejam, o próprio autor assim se definiu. A história é ótima, já devo ter contado, mas vale lembrar (de novo). No começo dos anos 560, em plena caça às bruxas do macarthismo, houve uma reunião da Directors Guild para alinhar a entidade com as diretrizes do senador McCarthy. Cecil B. de Mille comandava os ‘trabalhos’, numa tentativa de golpe da direita de Hollywood para comprometer os diretores. John Ford, republicano, mas não reacionário, pediu a palavra e se apresentou – ‘Meu nome é John Ford e eu faço westerns’. Na sequência desmontou a argumentação de De Mille e sustentou que a liberdade de pensamento estava na base da Constituição dos EUA e a Guild não deveria se associar à caça aos suspeitos de atividades antiamericanas, porque estaria violando a própria base da grandeza dos EUA. Grande Ford. Lembro o episódio e me vem a cena da lição de democracia, na escola, em ‘O Homem Que Matou o Facínora’. Ah, os meus clássicos, os meus velhos… Volto a Ford, por causa do post precedente. Havia citado o livro de Bogdanovich sobre o diretor. Teria de pesquisar para saber de quando, exatamentwe, é o livro. A primeira parte é um making of de ‘Crepúsculo de Uma Raça’ (Cheyenne Atumn), de 1964. A entrevista não sei se utiliza material de Bogdanovich para o documentário ou se ele fez, depois, nova entrevista filmada. Não importa. Ford já estava no fim da vida (e carreira). Morreu em 1973. Os anos 60 mudaram tudo, em Hollywood e no mundo. Ford queixava-se de que, naquele momernto, não poderia mais fazer filmes como ‘O Sol Brilha na Imensidão’ e ‘Caravana de Bravos’. Como ele explica a Bogdanovich, sabia que esses filmes não iam dar dinheiro, mas queria fazê-los e beneficiava-se de outros sucerssos para zerar os ‘fracassos’. Dez a nos mais tarde isso não era mais possível. Os grandes tycoons, que eram magnatas preocupados com dinheiro mas que amavam o cinema, já haviam sido substituídos por executivos ligados a Wall Street e ao sistema financeiro. Como dizia Ford, os roteiros de filmes precisavam ser aprovados por… Sabe-se lá quem. Roteiros como os de ‘O Sol Brilha na Imensidão’ e ‘Caravana de Bravos’ não interessavam mais. É incrível, mas, 50 anos depois, estamos falando desses filmes e de como eles se mantêm. A velha briga entre arte e indústria do cinema. Entre ‘Sete Mulheres’, seu último longa, de 1966, e a morte, sete anos mais tarde, Ford viu vários de seus projetos serem arquivados pelos estúdios. Foi um melancólico fim de carreira. Raoul Walsh, John Sturges – no livro ao qual tenho me referido, ultimamente –, também se queixavam das mudanças na indústria e de sua crescente marginalização. Sabe-se lá quantas obras-primas deixaram de ser produzidas, por diretores que ainda estavam no auge. Não estou querendo dar murro em ponta de faca, chorando o leite derramado. Apenas me pareceu interessante registrar o desabafo de um dos maiores diretores do cinema, já que estamos falando nele.

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