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Direção ou roteiro?

Luiz Carlos Merten

25 Fevereiro 2007 | 10h39

Dei uma geral ontem nos comentários e encontrei, num dos posts que dediquei a Clint Eastwood (são tantos…), a indignação daquele leitor que reclamava de a gente ficar incensando o Clint e dizendo que ele é gênio, quando o autor do filme, ou pelo menos o co-autor, segundo o leitor, seria o roteirista. É uma discussão, não digo que velha como o cinema, mas que deve ter uns bons 65 anos, desde que os críticos começaram a discutir de quem seria a autoria de Cidadão Kane – do roteirista Herman Mankiewicz ou do diretor Orson Welles? Não tenho a menor dúvida de que seja do segundo, partidário que sou da política dos autores (mas não só dos grandes autores; dos pequenos, também). Enfim, quero contar uma coisa. No aeroporto de Paris, de volta para o Brasil, comprei a edição de fevereiro da revista Positif, cuja capa é dedicada a Clint (e ao seu díptico sobre a batalha de Iwo Jima). Há uma grande entrevista com Clint e outra com o roteirista Paul Haggis. Achei muito legal quando Clint conta como encontrou o Spielberg, conversaram, ele disse que queria fazer A Conquista da Honra baseado num livro do qual gostara, mas ia ser um filme caro, coisa e tal, e ele tinha medo de não encontrar uma Major interessada – Clint conta que, quando buscava parceiros para Menina de Ouro, uma executiva, olhem que peste, disse que não ia fazer porque era drama e ela só queria produzir comédia. Spielberg na hora perguntou – por que não vem fazer o filme com a gente na DreamWorks? Apertaram-se as mãos, selaram o compromisso (dois cavalheiros, mas que cavalheiros!) e foi assim que tudo começou. Clint conta que chamou Paul Haggis, seu parceiro na Menina, para escrever o roteiro. Paul leu o livro e não conseguia visualizar um filme pelo simples fato de que lhe parecia que ali havia material para muitos filmes. Clint deu uma idéia geral (o personagem do índio lhe interessava particularmente), Paul Haggis começou a trabalhar. Clint ligava todo dia para conversar e o outro dizia que estava empacado. Um dia, Clint recebeu a primeira versão do roteiro de A Conquista da Honra. Disse – vamos filmar! Paul Haggis se apavorou. Disse que eram necessários ajustes, que isso e aquilo. Clint disse que não. Ia filmar aquele roteiro. Os ajustes, se necessários, seriam feitos durante a filmagem. E foi assim que fez. O roteiro é de Paul Haggis, o filme é de Clint. Basta comparar com o filme que o próprio Haggis realizou, Crash. É outro mundo. Da mesma forma, quando decidiu fazer Cartas, contando a outra versão (a japonesa) da batalha de Iwo Jima, Clint enviou as cartas do general Kuribayashi e as de seus comandados e Paul Haggis trabalhou um pouco, montou uma estrutura narrativa, mas disse que não ia escrever o roteiro. Indicou Iris Yamashita (é Yamashita, não?), uma escritora nipo-americana, que escreveu o roteiro em inglês e, depois, ele foi vertido para o japonês. O roteiro é de Iris – o primeiro roteiro dela filmado -, o filme é de Clint. Não se trata de subestimar a importância dos colaboradores, mas o filme expressa um estilo, um imaginário, uma visão de mundo, e tudo isso é do diretor. Gostei da história quando li. Queria repassá-la para vocês. Está feito.