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Luiz Carlos Merten

02 Novembro 2010 | 12h58

O que vocês vão ler agora forma um díptico com o post anterior. Esperei nove meses, o tempo de uma gestação, desde o alegado ‘fracasso’ de ‘Lula, o Filho do Brasil’, que já se desenhara em fevereiro, para acrescentar o texto que vocês vão ler. Muita gente vai odiar, fazer o quê? Tudo bem que o filme, com um milhão de espectadores, não foi um fiasco, mas certamente ficou muito abaixo do esperado pelos produtores e exibidores. Me lembro do Fábio Barreto, diretor do filme, na entrevista que me deu – sua última? –, dizendo que o problema da oposição não era o filme dele, mas o presidente, e que se Dilma ganhasse, como efetivamente ganhou, isso não teria na a ver com ‘Lula, o Filho do Brasil’, e não teve mesmo. Talvez o filme não fique entre os selecionados para o Oscar, mas seria bom se ficasse. Forçaria as pessoas – os críticos? – a olharem de outro jeito para ele. Muita gente reclama da santificação do Lula no filme do Fábio, outros invocam problemas – o filme não mostra isso, ou aquilo –, como se não fosse uma obra de ficção e sim, uma peça jornalística e, portanto, essa história de isenção não ‘cola’. Um grupo de estudantes de comunicação me entrevistou há algumas semanas para um Trabalho de Conclusão do Curso (TCC). Já haviam entrevistado algumas pessoas, chegaram com seu TCC pronto. Vou repetir aqui o que lhes disse e que bagunçou o que parecia definitivo. Não discuto o oportunismo de fazer o filme num ano eleitoral etc e tal. Mas me fascina a forma como, no meu imaginário, Fábio Barreto, um diretor até então medíocre, reinventou Glauber Rocha, fazendo um filme que, como o ‘Dragão da Maldade’, pretende ser nacional e popular, no velho conceito gramsciano. ‘Lula’, o filme, não santifica Lula, o homem. Toda a construção do filme se faz em dois movimentos – a mãe, que representa suas virtudes; o pai, que concentra os defeitos. E toda a arquitetura converge para a cena do estádio, quando a voz de Lula, o líder sindical, é repetida pelas pessoas para suprir a falta de microfone e todos aqueles ‘nordestinos’, pois a maioria dos peões era formada por nordestinos, somam e multiplicam suas vozes, realizando a previsão do beato Sebastião. A mãe, Deus, o pai, o Diabo. O sertão que vira mar. Mas é ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, não? Reinventado, popularizado, ‘Deus e o Diabo’. De volta a Dilma, quem matou a charada foi o ‘The New York Times’, um jornal que, imagino, não pode ser acusado de ‘parcial’, e menos ainda de parcial em defesa do lulismo/petismo. Um amigo me mostrou a última linha do texto que saiu ontem no site, comentando a vitória. “Too tough to beat’, Dura demais para bater. Era uma batalha ganha, e não passou pelo filme do Fábio, que bem merecia uma graça – ele -, voltando do seu coma.

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