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Diogão!

Luiz Carlos Merten

27 Março 2015 | 11h06

Não tenho ido muito a teatro. Fui ver A Fantástica Casa de Bonecas, traduzido por meu amigo Dib Carneiro, e os anões me parecem o melhor da encenação, e também As Criadas. O texto de Jean Genet marca o retorno de Eduardo Tolentino ao Teatro da Aliança Francesa. Andei acompanhando o Tolentino em suas andanças pelos teatros da cidade. Fui ver As Criadas com o Dib. Ao entrar no teatro, comentei com ele – Tolentino voltou para casa. Ele encheu o palco de espelhos que refletem as poltronas (e os espectadores) na plateia. Era uma característica de vários de seus espetáculos anteriores na Aliança. O texto é forte, e eu até hoje lamento não ter visto a adaptação de Nico Papatakis, mas, na verdade, Les Abysses, de 1961 ou 62, é menos uma versão da peça que do episódio real em que o próprio Genet se inspirou. O começo me deixou inquieto. O texto me parecia muito declamado, mas ou as atrizes entraram no clima ou eu entrei, e o espetáculo deslancha – e explode. Denise Weinberg e Clara Carvalho são ótimas. Gostei. E ontem fui ver Sambra. Cem anos de samba num espetáculo muito bonito ancorado por Diogo Nogueira. Não é de hoje que gosto do filho de João Nogueira, que forneceu a trilha sonora de uma fase da minha vida, num bar que frequentava em Porto Alegre, o Panorama, no fim dos anos 1970. Era uma turma que envolvia amores e que se dispersou. Alguns (quantos?) foram para Floripa. Imagino que lá estejam. Diogo tem uma energia, uma malandragem, um sorriso que me encantam.  Sambra é um musical show que conta a história do samba. Pensava que o Bra é de Brasil, mas é de Bradesco, e assim sendo me pergunto por que o espetáculo não estreou no Teatro Bradesco. Por que o Espaço das Américas é maior e abriga mais gente? Pode ser. No programa, Diogo diz que nasceu no samba e no samba se criou. Vem daí a ginga? Gustavo Gasparani assina a direção e o texto, que costura com música e falas – e figurinos, e cenografia, e iluminação – a história desse centenário. Gostei demais de algumas partes – o segmento Cartola, o Roda Viva (com a resistência dos artistas e a repressão do regime de exceção), o momento João Nogueira, com a gravação de Clara Nunes (Minha Missão), e o Diogo cantando Sinal Fechado, que com Carinhoso, Juízo Final, As Rosas não Falam e mais alguma outra (Quem Te Viu Quem Te Vê e Coração de Estudante) ocupa o ‘meu’ panteão da MPB. Disse no começo que Diogo é o âncora do espetáculo. Ele não está sempre em cena. Há um elenco muito criativo, que canta e dança. Diogo entra em momentos pontuais, decisivos. Perdeu um pouco a forma, mas não o carisma nem a majestade. Achei-o generoso. Aqueles milhares de pessoas que lá estavam queriam vê-lo. Viram o show, o grupo. Vale dizer que chorei? Já saí na Mangueira, na Sapucaí. Como não sou da comunidade, vou ter de cometer uma traição à verde e rosa. A águia da Portela me deixa doidão. Ainda saio na azul e branco. Único senão. Em geral, os telões aproximam o artista do público e mostram detalhes despercebidos à distância. Os telões de Sambra afastam, como se vissem o espetáculo à distância. Pode ser burrice, admito, mas não entendi o conceito.