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Cultura » Diferença para quem?

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Luiz Carlos Merten

29 Janeiro 2007 | 18h27

Dei uma olhada rápida nos comentários sobre o post de Tiradentes – o cinema brasileiro entre o comercial e o experimental – e encontrei o comentário do Duda Valente. O que ele diz é que é injusto criticar os experimentais, quando erram – e erram bastante –, porque na maioria das vezes fazem seus filmes com pouco dinheiro, ou dinheiro do próprio bolso. Como volta e meia me acusam de andar meio sem paciência, devo acrescentar que este é mais um daqueles casos. Como a maioria das pessoas que pensam, não estou 100% satisfeito com os sistemas de financiamento que possibilitam a existência do cinema brasileiro atual. Acho que há muitíssima coisa para discutir, mas incluo o que o Duda diz – não é nada não é nada, fazer os filmes com pouco dinheiro público cria uma diferença e tanto. Pois é – em termos. Tenho a impressão que cria uma diferença para nós, jornalistas, porque na outra ponta nunca vi espectador nenhum pedindo no cinema o organograma de produção, para saber quanto custou um filme. De minha experiência pessoal, vendo filmes, conversando com as pessoas, debatendo, tenho impressão é que o espectador quer sempre ser arrebatado pelo filme, independentemente de ter custado R$ 38 mil (o orçamento de O Quadrado de Joana) ou R$ 4 milhões (o de A Máquina, que foi um fracasso de bilheteria). Já que estou enfiando o pé na jaca, deixa eu enfiar os dois. Em Tiradentes, me foi feita uma provocação. Se eu achava que era justo que diretores que fracassaram na bilheteria (o alvo era João Falcão) pudessem voltar ao mercado para captar mais R$ 4 milhões. Acho todo o mecanismo de captação muito perverso – Heitor Dhalia não conseguiu captar para O Cheiro do Ralo, pôxa –, mas A Máquina é um filme maravilhoso. Se o público e os coleguinhas não ‘entenderam’, isso não vai diminuir em nada a minha admiração pelo filme, nem o meu desejo de que o João prossiga sua carreira como diretor. Confesso que, comparativamente, fiquei decepcionado com o filme seguinte dele, Fica Comigo Esta Noite, que não tem nem de longe o que, para mim, é a ousadia estética da Máquina. Mas não vou impedir que o João volte ao mercado em busca de patrocínio para levar sua obra. O princípio de favorecimento do mercado – quem ganha ou não patrocínio – pode e deve ser discutido. As comissões, as diretorias de Marketing, o processo em si, mas o critério de público não me parece a melhor aferição da qualidade estética de um filme, nem de um lado (os diretores comerciais) nem do outro (os experimentais). Ficar defendendo só porque custou baratinho… Baratinho para quem? Não, certamente, para o espectador, que pagou igual (outra perversidade, ou não?) e empatou tempo e dinheiro em algo insatisfatório.

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