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Luiz Carlos Merten

30 Dezembro 2008 | 15h16

Sempre me impressionou muito que Yasujiro Ozu tenha morrido – de câncer – no dia em que completava 60 anos, em 1963. Me impressiona mais ainda o fato de ele, em sua lápide, uma pequena caixa de mármore negro – li isso tantas vezes que decorei –, ter pedido que não fossem inscritos data nem nome, apenas o ideograma do chinês arcaico ‘Mu’, que designa o vazio. Nada mais. Ozu, considerado o mais japonês dos grandes autores de filmes do Japão, foi alvo de uma consagração internacional tardia, muitos anos após sua morte. Godard e, principalmente, Wenders foram (são?) os principais oficiantes do culto a Ozu, que no Brasil, foi contemplado com um livro de Lúcia Nagib, mas a obra definitiva de referência sobre ele, para mim, é o ensaio de Paul Schrader, que juntou Ozu, Dreyer e Bresson num estudo sobre o que chamou de ‘cinema da transcendência’. Já virou até lugar comum referir-se ao grande diretor como um artista ‘imutável’, outro jansenista (como Bresson) da mise-en-scène. Um minimalista radical, em síntese, embora existam análuises célebres que justamente contestam essa ‘imutabilidade’ de Ozu. Acho que foi Sérgio Augusto quem sacou o óbvio – que Ozu não fazia dramas, na plena acepção do termo, mas comédias contemplativas e agridoces, todas construídas em torno do mesmo tema, a família, que ele ampliava mostrando seus personagens na escola, no escritório etc. Ozu odiava as intrigas elaboradas – achava-as ‘enfadonhas’ – e ficou famoso pelos planos fixos, cortes secos e pela singular posição da câmera, que situava na altura do olho de um observador sentado no tatame. Era dali que Ozu via o mundo em transformação, flagrando as mudanças da família tradicional japonesa, fosse em formação ou dissolução. Vou abrir um parágrafo (isto já está virando norma).
Como Bergman, descoberto simultaneamente no Uruguai e no Brasil, no começo dos anos 50, São Paulo se antecipou à Europa no reconhecimento do gênio de Ozu. ‘Era Uma Vez em Tóquio’ (Tokyo Monogatari) estreou aqui bem antes dos EUA, aonde chegou por empenho do crítico Donald Ritchie, que foi, talvez, o maior divulgador do cinema japonês no Ocidente. Fico sempre em dúvida se o título do filme é no singular ou plural – acho que é plural, ‘Dias de Outono’, um dos que foram lançados pela Cinemax no País. É uma revisão de outro grande Ozui, ‘Pai e Filha, de 1949. No filme anterior, Setsuko Hara, fazia a filha indignada com a possibilidade de seu pai viúvo casar-se novamente. Agora, Setsuko faz a mãe vítima do mesmo preconceito que tinha como filha. Esse paralelismo não apenas é possível como intencional, e marcou a última fase do diretor, caracterizada pela extrema depuração do estilo. Não me lembro mais que crítico escreveu – acho que foi um japonês, teria de pesquisar – que Ozu, em sua última fase, atingiu o pleno exercício da liberdade dentro da mais rigorosa ordem. Até certo ponto, isso é o que se pode dizer também da última fase de Luis Buñuel, mas não existe nada mais diverso do surrealismo de um do que o gosto do outro pelas pequenas miudezas do cotidiano. Assistindo a um filme, é muito raro que a gente fique pensando em coisas como as linhas de eixo da câmera, mas aqui é muito interessante conferir como Ozu manipula essas linhas para mudar o ponto de vista dos personagens. E Ozu, olímpico, não teme quebrar o pathos da relação entre mãe e filha com elementos do mais puro humor – as maquinações do velho trio de amigos são engraçadas, ou pelo menos assim me parecem, na lembrança. Presumo que ‘Dias de Outuno’ também possa ser comprado. Vai ser uma excelente aquisição para a devedeteca de qualquer cinéfilo que se preze.