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Diário da Suécia (3)

Luiz Carlos Merten

03 Julho 2008 | 19h07

FARÖ – Quando Bergman chegou a Farö, a ilha era um posto avançado do Exército sueco. Ela possuía valor estratégico porque no limite, no outro lado do oceano, há um pedaço da Rússia e, em outra direção, da Polônia. Somente suecos eram autorizados a visitar o local. Andrei Tarkovski tentou filmar aqui ‘O Sacrifício’ em 1986, por aí, mas não obteve autorização. A ilha ainda possui uma base de treinamento – vi uns carros militares, passando para lá e para cá –, mas não tem mais a mesma importância estratégica, após a queda do Muro e a destruição do império soviético, e foi aberta para os estrangeiros já há alguns anos, o que nos possibilitou estar aqui por quatro dias. O fato de ser uma base militar facilitou muito a vida de Bergman, quando ele fez ‘Vergonha’, seu filme que melhor explora a paisagem de Farö. Bergman, tantas vezes acusado de alienação, resolveu, pelo espaço de um filme, somar às suas tradicionais indagações existenciais, uma meditação sobre a guerra. O filme conta a histórias deste casal de músicos, Max Von Sydow e Liv Ullman, colhido no meio de uma guerra que os ultrapassa (e que eles não entendem). Eram os anos do Vietnã e Bergman foi muito criticado na Suécia por falar de guerra, sem tomar partido (a favor dos EUA). O que ele mostra é o horror da guerra e seu efeito sobre as pessoas. Max Von Sydow revela uma dureza que nem ele sabia possuir. Liv é a própria fragilidade, uma mulher-criança que expressa seu tormento diante da guerra (e de seu cortejo de destruições). Bergman dispôs, em Farö, de tanques, extras (os soldados) e até de especialistas para as numerosas cenas de explosões. Uma das grandes cenas do filme mostra o casal em movimento, puxando um carrinho no qual estão seus pertences, com uma igreja destruída ao fundo. Bergman não destruiu igreja nenhuma. Seu cenógrafo no Teatro Real de Estocolmo criou uma maquete que o gênio visual de Sven Nykvist, o fotógrafo, transformou num efeito maravilhoso, simplesmente ao colocá-la numa determinada altura que sugere a distância. A Semana Bergman reconstituiu a cena, mostrando como foi filmada. Aquela maquete, solta no meio da estrada, parecia despropositada. Dois integrantes do nosso grupo fizeram os papéis de Max e Liv. Foi impressionante acompanhar a construção da cena pelo monitor. A igreja estava lá no fundo, como uma imagem de devastação. Bergman encarava o cinema como a sua lanterna mágica. Possivelmente nenhuma outra cena de sua longa (e brilhante) carreira mostra isso tão bem.