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Luiz Carlos Merten

03 Julho 2008 | 19h02

FARÖ – Como cinéfilo, tive várias oportunidades de assistir a ‘The Phantom Carriage’ (A Carroça Fantasma), mas confesso que só conhecia o clássico silencioso de Victor Sjostrom de ouvir falar e da homenagem que Ingmar Bergman lhe presta em ‘Morangos Silvestres’, no qual o próprio Sjostrom interpreta o professor Isak Borg. Não me lembro agora quem postou o comentário de que Bergman é um chato. Vou confessar para vocês. Pode ser que eu esteja enganado, mas meu primeiro Bergman foi justamente este, ‘Smultronstallet’, que P.F. Gastal, em Porto Alegre, considerava uma obra-prima. Vi, era muito jovem e tive essa mesma sensação de que era chato. Só mais tarde descobri o filme e hoje é o meu Bergman favorito (com ‘Gritos e Sussurros’). Mas o que quero dizer agora é que, inconscientemente, acho que eu evitava ‘The Phantom Carriage’ à espera da maravilhosa experiência que tive hoje, domingo, assistindo ao filme em Farö, no solo sagrado de Bergman, numa versão restaurada e com acompanhamento ao vivo de Matti Bye, que compôs uma partitura deslumbrante para o filme. Vou indicar aos meus amigos do Festival do Rio e a Leon Cakoff, o Sr. Mostra de São Paulo, que façam esse favor aos cinéfilos brasileiros levando, para a abertura ou encerramento dos respectivos festivais, este filme maravilhoso que Matti Bye e sua nova partitura conseguiram transformar numa experiência mais bela, ainda. Depois do filme – há uma controvéresia quanto ao título, porque o relato de Salma Lagerloff que lhe deu origem não se refere propriamente à carruagem dos mortos, mas ao seu condutor –, eu estava me sentindo no céu e ainda fomos jantar num restaurante chamado Fortaleza, na ilha maior, contígua à Farö, Gotland (onde ocorreu a exibição). Estávamos seis dos oito convidados do Instituto Sueco, mais as meninas que foram nossas cicerones o tempo todo. Falamos de cinema, naturalmente. Michael, da Cryterion Collection, ama, como eu, Arnaud Desplechin e Hou Hsiao-hsien. Trocamos figurinhas sobre “A Carroça Fantasma’, que a Cryterion vai lançar em DVD, e sobre ‘A Viagem do Balão Vermelho’, além do original de Albert Lamorisse, de 1956. Tudo isso enquanto bebíamos uma cerveja sueca, um pouco amarga (e forte), mas deliciosa. Foi um dia perfeito. Estou redigindo este post já na madrugada de segunda. Vou dormir porque daqui a pouco partimos da ilha, rumo ao aeroporto de Estocolmo. Vou tentar antecipar meu vôo para Paris, para evitar muitas horas de espera no aeroporto. Espero conseguí-lo. Paris tem sempre tanta coisa para rever. Estive lá há cerca de um mês, após Cannes. Paris, lá vou eu. De novo!