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Luiz Carlos Merten

03 Julho 2008 | 19h13

PARIS – Embarco à noite para o Brasil (quarta-feira) e agora à tarde havia planejado ver dois filmes. Assisti a somente um, ‘A Harpa da Birmânia’, de Kon Ichikawa, que ia engatar com ‘La Soledad’, de Jaime Rosales, vencedor do Goya, mas desisti. Preferi ficar só com o filme de Ichikawa, que morreu há alguns meses e me lembro de ter citado ‘A Harpa’ como seu filme mais famoso. ‘A Harpa’ está sendo lançado em cópia nova, zero bala, no mesmo cinema – o Reflets Médicis – no qual começa dia 16 um supervento de cinema japonês, com várias reestréias, incluindo a de ‘Harakiri’, de Masaki Kobayashi, que deve culminar em agosto com outra grande reestréia de Kobayashi, a das três partes de ‘Guerra e Humanidade’, também conhecido como ‘A Condição Humana’ (como o romance de André Malraux, do qual não é a adaptação). ‘A Harpa’ foi premiado em Veneza, em 1956. Foi um ano atípico. O júri não distribuiu grandes prêmios (o Leão de São Marcos), apenas dois prêmios especiais, para o filme de Ichikawa e para ‘Calle Mayor’, do espanhol Juan Antonio Bardem, tio de Javier. Em todo o mundo, o pacifismo do diretor japonês provocou a maior comoção. Lembro-me que tinha um subtítulo – ‘Não Enterrai os Mortos’. O filme conta a história de um regimento japonês na Birmânia. Existe este soldado, grande tocador de harpa, que se desgarra dos companheiros, numa missão pacifista. Eles o esperam para voltar ao Japão. Identificam-no como o monje budista que cruza seu caminho, na proximidade do campo em que foram aprisionados pelos ingleses. No filme de Ichikawa, a música é a linguagem que une os homens. O monje é o soldado, mas ele não pode voltar ao Japão porque precisa enterrar todos os mortos em combate, para evitar que virem almas errantes. Num filme seguinte, ‘Fogo na Planície’, Ichikawa filmou o horror da guerra, em que os soldados regrediam à barbárie e praticavam até o canibalismo. Aqui, sua inspiração é religiosa – a transcendência da guerra por meio do budismo, como possibilidade de redenção dos homens. Dito assim, parece piegas, mas chorei de me acabar e comigo um monte de gente no cinema. Ichikawa foi comunista – tenho certeza –, mas sua reação ao militarismo que arrastou o Japão à guerra e arrasou o país possui uma serenidade mística muito grande. ‘A Harpa da Birmânia’ está sendo relançado na França pela Carlota (ou será com K?), uma sociedade que recupera clássicos do cinema. A Carlota está por trás de boa parte deste ciclo de cinema japonês que os parisienses vão ver – obras preciosas de Ozu, Mizoguchi, Oshima, Teshigahara e Kobayashi. Nossos distribuidores mais independentes, voltados à difusão do cinema de arte europeu – Jean-Thomas, da Imovision, e André Sturm, da Pandora –, bem podiam alargar seus horizontes e garimpar, no acervo da Carlota, filmes que fariam a delícia de nossos cinéfilos. Todos vocês, espero.