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Luiz Carlos Merten

03 Julho 2008 | 19h09

PARIS – Já estou em Paris desde ontem. É terça, de tarde, acabo de vir do cinema e não tenho muita certeza de que vá conseguir acrescentar este post nem os precedentes, que redigi ainda em Farö. Tentei achar uma conexão de wireless, mas não consegui, pode ser que mais tarde. Vou tentar. Por via das dúvidas, escrevo e, na pior das hipóteses, salvo todos esses posts na quinta, de volta a São Paulo. Paris está muito quente, um sol de rachar até quase dez da noite. Pelo menos, era este horário quando entrei ontem no cinema Champo para assistir a ‘Os Assassinos’, a versão noir de Robert Siodmak, com Burt Lancaster como o Sueco e Ava Gardner como a mulher fatal. Na verdade, estou fazendo uma revisão do cinema de gênero porque agora à tarde já vi ‘A Última Caçada’, western de Richard Brooks, com Robert Taylor e Stewart Granger. Até pensei em antecipar minha volta para hoje, mas amanhã reestréia, em cópia nova, ‘A Harpa da Birmânia’, de Kon Ichikawa, precedendo, no cine Reflets Médicis, um grande evento do cinema japonês, a partir de 16 de julho. Meu Deus! É tanta coisa para ver que chego a ficar tonto, tendo de fazer tantas escolhas. E isso que perdi o que seria o maior motivo para essa minha vinda a Paris. Simplesmente havia fazer aqui a conexão para o Brasil, mas qureria ver Jeanne Moreau no teatro, na montagem parisiense de ‘Quartet’ (embora não tenha gostado da versão brasileira, com Beth Goulart). Jeanne encerrou sua temporada no domingo, acreditam? Agora mesmo, voltei ao hotel para deixar uns livros e revistas que comprei – os livros são outros volumes daquela coleção ‘Cahiers du Cinéma’/’Le Monde’, a que já me referi. Também queria tentar mais uma vez se acho uma conexão, mas está difícil. É tanta coisa para comentar. Ava Gardner como uma femme fatale morena – o que era aquela mulher? Fiquei me lembrando da versão de Don Siegel, nos anos 60, com Lee Marvin como um dos assassinos, John Cassavetes como o Sueco e Angie Dickinson como a mulher fatal. O ex-presidente Ronald Reagan fazia o bad guy, lembram-se? Nem me lembro mais porque falamos aqui no outro dia sobre Angie Dickinson. Lembramos os filmes dela com Howard Hawks, Lewis Milestone e arthur Penn – ela era a mulher do xerife Marlon Brando em ‘Caçada Humana’ –, mas não estou certo de ter citado a participação de Angie no telefilme de Siegel. ‘Os Assassinos’ saiu tão bom que foi lançado nos cinemas e ainda valeu ao diretor um contrato com a Universal para reiniciar, com ‘Madigan’, que se chamou ‘Os Impiedosos’ no Brasil, a melhor fase de sua carreira. Richard Nixon, a visão urgente do asfalto; Henry Fonda, a visão distante do burocrata policial, e ambos ligados numa narrativa que ilustra, como poucas, as virtudes da montagem clássica. (Siegel foi um grande montador, mas é encompridar muito a história). Do noir, em impecável – implacável – preto-branco de Siegel para o western de Brooks – que viagem! ‘A Última Caçada’ tem Debra Paget fazendo papel de índia, ela que foi uma das grandes belezas ‘exóticas’ de Hollywood, nos anos 50. Além de todas as índias que interpretou para Allan Dwan, Delmer Daves e Richard Brooks, Debra foi uma indiana para Fritz Lang no expressionista (em cores) ‘O Tigre da Índia’. Vou tentar postar de novo. Se não der certo, continuo tentando, mas antes vou sair para ver mais alguma coisa.