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Diamante Cor-de-Rosa

Luiz Carlos Merten

08 Janeiro 2007 | 12h48

MONTEVIDEU – Revi ontem Diamante de Sangue e continuo gostando muito do filme do Edward Zwick. Acho que o cara nao eh um autor, embora tenha uma preferencia por temas e personagens que tambem me atraem, a exemplo do anterior O Ultimo Samurai. (Soh para deixar claro – acho Lendas da Paixao, que ele tambem fez, muito ruim, embora ame o livro Lendas de Outono, no qual se baseia.). Acho que o final do personagem de CiCaprio naquela montanha eh uma coisa convencional, mas nao quero usar a palavra. Eh algo jah-visto na dramaturgia de Hollywood, mas eh tudo tao forte, o final tao emocionante, que viajo naquelas imagens e relevo todos os defeitos. Hah um tipo de historia que soh Hollywood, para o bem e para o mal, sabe e tem recursos para contar. Esta eh uma delas. Uma historia de violencia, de crime e castigo, de crime e purgacao, na Africa, atacando a industria de diamantres como Fernando Meirelles atacara a farmaceutica em O Jardineiro Fiel.Achei DiCaprio sensacional e ele merece nao soh ser indicado para o Oscar de melhor ator como receber o premio. Eh verdade que nao eh o protagonista da historia, posto que cabe ao personagem interpretado por Djimon Hounsou, que nao foi indicado para o Gloibo de Ouro de melhor ator e duvido que seja para o Oscar. Se for, serah como coadjuvante, embora devesse ser o contrario. Ele, o melhor ator e DiCaprio, o melhor coadjuvante (e aih Leo poderia concorrer também por Os Infiltrados). Mas tem uma coisa que me deixa louco – 30 segundos num filme de quase duas horas e meia. Eh quando Djimon, alias, Salomon Vandy, encontra o diamante cor-de-rosa, que vai transformar sua vida. Ele pega da agua o recipiente que contem a pedra, mas Salomon ainda nao sabe. Ele ouve o pio da ave e acompanha o seu voo. Eisenstein teria filmado a cena de Salomon com o recipente de varios angulos para dilatar o tempo e fazer com que o espectador percebesse a importancia daquele momento. Zwick colhe o mesmo efeito de outra maneira. No limite, o cinema eh sempre isso – uma maneira de usar o tempo. Acho a imagem maravilhosa e o filme eh rico em cenas muito legais. Cito o dialogo de DiCaprio e Jennifer Connelly, quando se contam suas historias de familia; a cena anterior em que ela o acusa de ser um mercenario cinico, um brutal contrabandista de diamantes e ele diz que nao eh diferente da jornalista politicamente correta que ela pretende ser – ambos atendem a diferentes demandas da mesma sociedade alienada e consumista; e o reencontro de Salomon com a familia, no hangar, quando todos se abracam. A cena em que o filho, transformado em soldado da revolucao, acusa o pai (e o olhar de Djimon transmite todo o horror daquela traicao) me lembrou nao um filme, mas o que ocorreu com Chen Kaige, que viu o pai ser humilhado durante a Revolucao Cultural e nada fez para ajuda-lo, um pouco por medo, mas tambem porque vivia pelo Livro Vermelho do camarada Mao. Anos mais tarde, para se purgar, Kaige fez Adeus, Minha Coincubina, que ganhou a Palma de Ouro. A realidade antecipou-se á ficcao.

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