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Luiz Carlos Merten

13 Agosto 2011 | 10h34

GRAMADO – E o 39º Festival de Cinema Brasileiro e Latino vai chegando ao seu final. Hoje à noite ocorre a cerimônia de premiação, e eu devo fazer os comentários na Rede Educativa, TV Cultura. Ontem à noite foram exibidos os últimos filmes, o concorrente dominicano ‘Jean Gentil’ e o brasileiro ‘Sudoeste’, fora de concurso. Gramado, em 2011, pode ter tiudo seus altos e baixos, mas o fecxho foi glorioso. O filme da República Dominicana é sobre Jean Gentry, um personagem que o atravessa possuído por uma melancolia dilacerante. Ele não enconbtra seu lugar no mundo. Emprego, mulher, nada dá certo. Jean Gentil, é o que ele é, vai parar numa praia inóspita, selvagem. Encontra seus raros amigos. O tempo todo ele tenta dialogar com Deus. Pede um milagre, sonha elevar-se aos céus. O milagre não vem, ou vem na última cena. Adorei o filme de Laura Guzmán e Israel Cárdenas. Havia feito uma pesquisa rápida na rede para descobrir o nome da co-diretora e encontrei a indicação, na ‘Vejinha’, de que ‘Jean Gentil’ passou na Mostra de São Paulo de 2010. A maratona de Leon Cakoff e Renata de Almeida tem sempre tanta coisa que ‘Jean Gentil’ me passou despercebido. Mesmo gostando dos demais latinos, foi o único que me fez balançar na minha preferência pelo chileno ‘La Lección de Pintura’, de Pablo Perelman. E ‘Jean Gentil’ dialoga lindamente com ‘Sudoeste’, de Eduardo Nunes. Havia visitado o set, em Andra dos Reis, próximo a Arraial do Cabo, onde Paulo César Saraceni realizou sua primeira (e melhor) ficção, ‘Porto das Caixas’. Fiz uma matéria de quem apostava/acreditava no projeto. Eduardo Nunes e sua equipe (o produtor Patrick Lebranc, o fotógrafo Mauro Pinheiro, a atriz Simone Spoladore) não me decepcionaram. Gostei de muita coisa neste festival – mais dos filmes latinos do que dos brasileiros, é verdade -, mas ‘Sudoeste’ talvez tenha sido o filme mais belo que vi aqui. A beleza é visual, e mais alguma coisa. Diz respeito ao conceito. As imagens são deslumbrantes. Formato widescreen, não propriamente cinemascope, porque Nunes e Pinheiro inventaram um formato. Preto e branco. Uma mulher morre na abertura, ao ar à luz. O filme segue seu bebê, Clarice, em diferentes etapas da vida. É a mesma Clarice? Criança, mulher, velha. As temporalidades se interpenetram. Como se constrói o tempo no cinema? Cinema é tempo (e espaço), mas Nunes e seu roteirista criaram uma metáfora. A pá do moinho de vento fica rodando na tela, um som rascante. Impossível não pensar em Mário Peixoto, ‘Limite’. O festival, por sinal, mostrou ontem à tarede o documentário ‘O Mar de Mário’, de Reginaldo Contijo e Luiz Fernando Suffiato, sobre o clássico que completa 80 anos em 2011. Admiro ‘Limite’, respeito Mário Peixoto, mas ‘Limite’ não é um filme que me faça muito a cabeça. Como todo mundo, sou muito suscetível à mitologia em torno de Mário (e sua reclusão). Mais um dia, menos um dia. A pá que rasga a tela, que fere o som marca mais um segundo, menos um segundo. ‘Sudoeste’ não é linear, não conta sua história de maneirta tradicional. Lembrei-me de ‘A Febre de Rato’, de Cláudio Assis. A garota, comentando o filme para o poeta Irandhyr Sanrtos, diz que ele não tem história. Irandhyr responde que a história ela, a gente, demos construir. Irandhyr poderia estar falando de ‘Sudoeste’. Ainda estou impactado. A história, ainda tento construir. Mesmo que nunca consiga, isso não me impede de assinalar. Eduardo Nunes é (muito) talentoso. E corajoso, o guri. Seu filme está na contracorrente de tudo o que se faz no cinema brasileiro.