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Diálogo sobre o cinema

Luiz Carlos Merten

01 Fevereiro 2018 | 13h43

Não sei mais quando nem onde comprei o livro. Gramado? Porto Alegre? Minha casa tem dessas surpresas. Às vezes procuro uma coisa e encontro outra. Ontem, depois de escrever sobre O Incerto Amanhã, procurava o Chris Fujiwara – Otto Preminger: The World and Its Double – e encontrei um pequeno volume (no tamanho). Diálogo sobre o Cinema, Editora Escritos. Uma troca de correspondência entre Carlos Gerbase e Nelson Nadotti. O Gerbase encontro volta e meia em Gramado. Nadotti foi para o Rio. Nunca mais o vi. Os dois começaram a fazer filmes em Porto. Super-8. A bitola do meu amigo Tuio Becker. Tuio é referido várias vezes, até eu sou lembrado. Não sei o que mais me encantou em Diálogo sobre o Cinema, se as memórias e reflexões sobre o mundo do cinema, ou a amizade que persiste via e-mail. Taí um debate, na forma de um encontro real, que poderia enriquecer Tiradentes no ano que vem, não importa qual venha a ser o tema da Mostra. Cinema fora da curva, feminismo, machismo, mainstream. Mais para o fim do livro, Gerbase e Nadotti – ou Carlos e Nelson, como se identificam – começam a fazer listas. De filmes e autores. Entro nessa porque, em 1995, para celebrar o centenário do cinema, escrevi Um Zapping de Lumière a Tarantino, para uma editora do Rio Grande do Sul. Naquele momento, Tarantino me parecia o novo, com Cães de Aluguel e Pulp Fiction, dois filmes que foram muito influentes. Anos mais tarde, a editora quis reimprimir o volume e eu preferi escrever outro, Entre a Realidade e o Artifício, porque estava impactado com as novas tecnologias. Já era uma espécie de Chamado Realista pioneiro. Novas formas de narração e aproximação com a realidade. There was a boy… Moulin Rouge, Dançando no Escuro. A célebre sequência da escadaria de Odessa substituída pelo assassinato de Marion Crane na ducha. Novos paradigmas. O que quero dizer é que meu amigo Walter Hugo Khouri talvez tivesse razão. Não, ele tinha razão. Khouri, que eu conheci num set de filmagem em Canela – Filhas do Fogo -, foi talvez o único cineasta que me acolheu em casa, sempre muito atencioso, a mulher, Nadir, e ele. Houve também o Anselmo Duarte, cuja casa frequentei em Salto, para escrever o livro dele na Coleção Aplauso. Mas não era a mesma coisa. Khouri dizia que eu estava me enganando com Quentin, que ele era um fenômeno pop e ia passar. Nadotti vai pela mesma linha. Acha que Tarantino não era a novidade, porra nenhuma, e nem deveria estar no meu livro. Concordo, e tanto que o retirei do livro seguinte. Ainda me divirto com Tarantino – mais com Cães de Aluguel que com Os Oito Odiados, mas não tenho mais ilusões quanto à sua ‘revolução’. Dramaturgia – Nadotti está certo ao citar o húngaro Lajos Eri – não é, não deve ser um joguinho para brincadeira. Diálogo sobre o Cinema é ótimo. Vou ficar feliz se mais pessoas o lerem.