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Cultura » Diálogo com Costa-Gavras

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Luiz Carlos Merten

20 Fevereiro 2008 | 07h59

Em anos anteriores, em Berlim, consegui fazer entrevistas com os vencedores dos Ursos especiais de carreira e com presidentes do júri (ou jurados). Este ano, não deu. Um pouco porque eu não estava nas melhores condições, outro tanto porque ocorreram defecções no júri (Sandrine Bonnaire e Suzanne Bier) e o Costa e sua turma tiveram de compensar. Ele ainda queria rever algumns filmes da retrospectiva de Buñuel. Confesso que via o Costa de longe, entrando e saindo de carros oficiais, e ficava pensando – adoraria falar com ele, perguntar-lhe sobre o encantador ‘A Culpa É do Fidel’, que sua filha Julie dirigiu. No domingo, pós-premiação, estava no aeroporto (Tegel) esperando meu vôo para Paris. Passou o Paul Thomas Anderson, cumprimentei-o, mas não tive a menor vontade de bancar o repórter correndo atrás dele. O aeroporto de Berlim é diferente de todos os outros que conheço. Existem o balcões de check-in das compasnhias e eles se abrem para salas de espera para o embarque dessas companhias. Tudo fica muito pequeno e, se o vôo está cheio, apertado. Estava sentado, quando vi o Costa entrando, passando pela segurança. Havia um lugar do meu lado e outro lá longe. Fiz todo o pensamento positivo do mundo e ele veio e sentou-se do meu lado. Não aguentei. Agradeci-lhe pelo Urso de Ouro para o ‘Tropa’ e ele foi muito simpático. Disse que haviam resistências ao filme do Padilha no júri, mas nada que não se pudesse resolver pelo diálogo e pelo convencimento. Costa-Gavras, a quem Padilha havia chamado de herói pelo seu cinema político nos anos 60 e 70, acrescntou que o ‘Tropa’ é um filme importante e, como tal, mereceu ganhar. Já descontraído, ataquei a pergunta sobre Julie. Disse que sou pai e queria saber a opinião dele como pai. Ele comentou que, como pai, é suspeito, mas disse todas aquelas coisas lindas que coloquei na matéria que saiu na edição de segunda-feira do Caderno 2. Julie fez um filme justo, sem exagero algum. E a menina que interpreta a protagonista é, como ele disse, ‘remarquable’. Deixei-o terminar de ler seu ‘Le Monde’. Quando chamaram para o nosso vôo, Costa-Gavras se despediu. “Au revoir, monsieur.” Fiquei no sétimo céu.