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Luiz Carlos Merten

02 Novembro 2007 | 08h52

Estou chegando agora ao jornal, um pouco tarde para o meu padrão, mas é sexta-feira de feriadão, Dia dos Mortos, e houve ontem o encerramento da Mostra. Confesso que, quando passei no cemitério de Pinheiros e vi toda aquela gente fazendo sua devoção aos entes queridos que se foram, me lembrei de alguns filmes – justamente ‘O Ente Querido’, que Tony Richardson adaptou de Evelyn Waugh nos anos 60 e, até onde me lembro, é o filme mais ‘ultrajante’ sobre mortos que já vi; a maravilhosa abertura de ‘Volver’, do Almodóvar; e – claro – o cônsul Firmin, interpretado por Albert Finney, que vive sua danação em Cuernavaca, no Dia dos Mortos, no filme ‘À Sombra do Vulcão’, que John Huston adaptou do livro (genial) de Malcolm Lowry. Huston fez seu filme em 1984 e, apenas três anos depois, realizou outro, o que terminou sendo o último de novo falando sobre morte, desta vez adaptando James Joyce (‘The Dead’). Grande Huston. Minha geração, em Porto Alegre, o desprezava, porque, como diziam os ‘Cahiers du Cinéma’, ele não possuía um estilo. É incrível. O cinema de ação, principalmente, banaliza a morte, mas existem alguns filmes que tentam decifrar esse mistério e, por isso measmo, se transformam em experiências viscerais, inesquecíveis. Estou me lembrando agora da Pietà de Bergman, em ‘Gritos e Sussurros’. Agnes (Harriet Andersson), que está morrendo e tem medo, é acolhida no colo pela empregada (Kari Silwan), que descobre o seio e a aninha ali, bem quentinha, para que ela possa morrer em paz. Que filme lindo, meu Deus! E termina com aquela imagem de vida – as três irmãs e a aia no jardim, num dia de sol. É como se Bergman nos dissesse que, a despeito de todo sofrimento, a vida é maravilhosa e vale ser vivida, nem que seja por um só momento – aquele que, em ‘Depois da Vida’, de Hirokazu Kore-eda, as pessoas escolhem para levar pela eternidade.