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Dez negrinhos no Oeste

Luiz Carlos Merten

02 Janeiro 2016 | 09h53

Tenho de começar o ano – é meu primeiro post – fazendo autocrítica. Esse meu método maluco de entrevistar sem anotar nem gravar tem seus inconvenientes. Sei sempre por onde puxar o fio de onde vão sair as histórias que conto – uma reportagem, mesmo uma entrevista, contam histórias. Mas, às vezes, lembro-me somente depois de coisas que me parecem essenciais. Fiz ontem a capa de Quentin Tarantino no Caderno 2, pegando carona no fato de que Oito Odiados – deveria ser odiosos, não? Hateful! -, estreia na quinta, 7, mas estava tendo pré-estreia no Noitão do Belas Artes. Quando Quentin esteve no Brasil, conversamos sobre o western dialogado, indoors, sobre a ausência de heróis e os personagens que vão sendo eliminados na estalagem maldita. Lá pelas tantas disse-lhe que o formato ‘whodunit’ tinha qualquer coisa de Agatha Christie e que a adorava. Realmente, não paro de ler a dama do mistério. Já havia fechado o texto e, ao chegar em casa, a primeira coisa que vejo é uma Agatha jogada na estante, Morte na Praia, nas velhas edições da LPM, que cato em bancas, porque gosto de ler esse tipo de livro assim, no formato pocket. Detesto as novas edições em formato maior, reunindo quatro histórias. Mas, enfim, foi bater o olho no volume e me veio aquela cara iluminada do Quentin e a aceleração dele quando se entusiasma, ao falar – e ele ia cada vez mais perdendo o freio após as sucessivas idas ao banheiro, he-he. Mas foi citar a Agatha e o Quentin lascou – ‘Exactly! Ten little indians!” Os dez negrinhos no Oeste. Confirmem quando virem o filme. Aproveito e tergiverso. Na conversa com Tarantino, e Tim Roth, Quentin citou o ‘trielo’ (duelo de três) no desfecho de Três Homens em Conflito e ficaram os dois, Tim e ele, imitando as vozes de Clint e Eli Wallach – Lee Van Cleef, não, porque, mais que o Estranho sem Nome, foi o grande taciturno do spaghetti western. Mas, enfim, na volta de Porto Alegre estava no aeroporto e havia uma revista que listava os maiores westerns, aqueles que você não pode deixar de ver. E dizia ali que o número um – e o número um do IMDb – é justamente Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo, de Sergio Leone. É, realmente, o melhor western de Leone. Revi em Cannes, no Cinema na Praia, acho que no ano passado e o duelo de três é uma coisa de louco pela encenação, pela desconstrução do tempo e pela música de ópera de Ennio Morricone que estira, além do limite, os planos (e a tensão) do realizador (do autor). Trem bão demais, mas daí a ser o melhor western? Sei bem o mundo em que vivo, acompanho com tristeza, mais que preocupação, a degradação de valores que me parecem essenciais – e a tentativa, de certa mídia, de criar novos valores que são, basicamente, de classe -, mas confesso que, no western, especialmente, meu gosto segue tradicional. Nada me faz desistir do meu John Ford, do meu George Stevens, do meu Anthony Mann. Rastros de Ódio, O Homem Que Matou o Facínora, Os Brutos Também Amam. Shane, o Galahad de Stevens, foi o modelo do Estranho sem Nome, até porque foi o modelo da mitologia que Akira Kurosawa criou no seu cinema de sabre (e em Yojimbo e Sanjuro, suas obras-primas). Shane chega (de onde?), reordena o mundo e parte, forçando o menino (Joey), isto é, nós, o público, a encarar(mos) o próprio amadurecimento – ético. Clint emulou Shane, mas, para disfarçar, em O Cavaleiro Solitário, transformou Joey numa garota. Por mais que ame Shane, quem está no meu altar é John Ford. Rastros de Ódio e Liberty Valance. A tragédia do solitário e o crepúsculo dos mocinhos, os pistoleiros do entardecer. John Wayne/Tom Doniphom mata o facínora, mas segue solitário para que James Stewart/Ramson Stoddard assuma a fama e siga em frente com a mulher a quem ama. A grandeza dos derrotados. Há 50 e tantos anos, boa parte da crítica não entendeu a narrativa indoors de Ford, que Tarantino agora retoma com seus oito odiosos (ou odiados). Ford foi chamado até de fake. Ford, falso! Foram-se seus heróis míticos. Sobrevivem no meu imaginário. E hoje, na TV paga, será possível rever O Último Pistoleiro. Don Siegel conseguiu. Retomou John Wayne e James Stewart, e mais crepusculares ainda. John Wayne está morrendo de câncer (e ele já havia sido diagnosticado com as doença, na vida), mas ainda consegue, pela última vez, empunhar a pistola e bancar o mocinho. E quem vê é o adolescente (Joey cresceu), o futuro diretor Ron Howard, que, em seus melhores filmes – Rush, No Coração do Mar -, não tem feito outra coisa senão carregar lembrtança dessa experiência e a grandeza dos heróis de Ford. Está de bom tamanho o meu primeiro post de 2016. Gênero, filmes e autores que amo. E que o ano, que já chegou, seja pródigo em bons filmes, para que tenhamos muitas conversas.