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Luiz Carlos Merten

11 Setembro 2011 | 01h19

Já passamos da meia-noite. Completam-se hoje, 11 de setembro, dez anos do ataque às torres gêmeas, em Nova York, e 38 do golpe militar que derrubou – e provocou a morte de – Salvador Allende, no Chile. Antes, havia suspeita de que a CIA havia participad0 do pinochetaço. A suspeita confirmou-se e só um esquerdista de carteirinha como Ken Loach lembrou-se do Chile naquele filme coletivo sobre o outro 11 de Setembro, que, atingindo os EUA, a ‘América’, redesenhou a política mundial. Muitos homens, loucos, visionários, quiseram mudar o mundo, mas ninguém, talvez, o tenha feito tão rapidamente quanto Osama bin Laden. O tempo daquelas torres serem atingidas, e ruir. Ele pagou com a vida, mas deixou um legado assustador – a ‘América’ ferida forneceu a George W. Bush o projeto de governo que ele não tinha e iniciou uma guerra – ao terror – que, ao longo da década, custou aos EUA US$ EUA 4 trilhõese criou um imbróglio, político e diplomático, do qual Barack Obama ainda não conseguiu sair. No primeiro post deste blog, editei uma foto, mesmo que tenha sido para dizer que seria um blog de texto, não de imagem. Uma geleia geral a partir do cinema, uma ponte para a atualidade, para o entendimento de nós mesmos. A foto era do World Trade Center ardendo, em chamas, pouco antes de desabar, soterrando mais de 3 mil pessoas. Na edição do ‘Estado’ no day after, cometi uma temeridade e faço aqui, agora, meu mea culpa. Certamente influenciado por anos e anos de filmes anti-árabes, previ que a vingança de Hollywoodseria terrível e até devo ter escrito, ou imaginado, que o cinemão ia convocar o Rambo de Sylvester Stallone para vencer Bin Laden. Rambo, afinal, vencera na ficção a guerra – do Vietnã – que os EUA perderam na realidade, em ‘Rambo 2 – A Missão’, do chamado ‘estilista da violência’, George Pan Cosmatos. Nada mais equivocado. Surgiram poucos filmes abordando diretamente o 11 de Setembro, e o mais famoso foi justamente ‘Fahrenheit 11 de Setembro’, de Michael Moore, ao qual o júri presidido por Quentin Tarantino outorgou a Palma de Ouro, uma decisão no mínimo polêmica, quem sabe até equivocada, mas que fazia sentido, no quadro da militância contra a (re)eleição de Bush Jr. Está para nascer outro presidente que, no concerto das nações, mesmo com a ‘América’ no papel de vítima, tenha conseguido despertar tanta rejeição e tanto ódio. Bush explorou o patriotismo de forma a exacerbar a paranoia, investindo numa indústria da guerra e da destruição – do Iraque, do Afeganistão -, que encheu de dinheiro seus aliados da indústria militarista e da (re)construção, como Michael Moore tão bem mostrou – é a parte irrefutável do filme – em ‘Fahrenheit’. Essa ladainha militarista pode ter tido eco do reacionário Meio-Oeste, reduto presidencial, mas provocou o efeito contrário em Hollywood. Recuemos até os anos 1970, ao escândalo de Watergate. Por mais interessante – e até bom – que seja ‘Todos os Homens do Presidente’, de Alan J. Pakula, que mostra como a dupla de repórteres do ‘The Washington Post’, Carl Bernstein e Bob Woodward, colocou a merda no ventilador e derrubou Richard M. Nixon, o melhor filme, o que retrata o clima de desconfiança dos norte-americanos, nas relações interpessoais e instritucionais, é um poderoso thriller de Arthur Penn, no qual não é feita nenhuma referência ao escândalo, mas no qual ele está inteiro, ‘Night Moves’, Um Lance no Escuro, com Gene Hackman, de 1975. O 11 de Setembro produziu filmes ‘Fahrenheit’, Caminho para Guantánamo’ e ‘Procedimento Operacional Padrão’, sobre o abuso de prisioneiros em Abu Ghraib, mas, como no caso de Watergate, não foram os que melhor retrataram o clima de desconfiança explorado e manipulado por Bush e seus asseclas. Uma comédia aparentemente tola, ‘Little Black Book’, A Caderneta Preta do Meu Namorado, ou coisa que o valha, aparentemente sem nenhuma ligação com o ataque nem a onda de repressão que se seguiu, desmontou a operaçãso de manipulação e expôs os limites da mídia, o quarto poder, que ficou presa na histeria patriótica habilmente orquestrada por Bush. Já disse aqui mil vezes e vou repetir – 1001 – que os melhores filmes sobre o 11 de Setembro formam uma trilogia informal, onde o ataque às torres gêmeas não só não aparece, como não é nem citado. Em ‘O Terminal’, ‘Guerra dos Mundos’ e ‘Munique’, Steven Spielberg expõe com rara força crítica os EUA de Bush. Spielberg ganhou duas vezes o Oscar, por ‘A Lista de Schindler’ e ‘Soldado Ryan’, mas é nesses três filmes que ele se afirma como grande criador. Ele prepara agora, se é que já não filmou, seu filme sobre Abraham Lincoln, com Daniel Day-Lewis, que vai se somar a ‘Amistad’, que tinha Anthony Hopkins, sublime, como John Quincy Adams. Dois filmes sobre os pais, os construtores da democracia, como se, depois de criticar Bush, Spielberg sentisse necessidade de voltar às origens da América e ao que fez da antiga colônia uma grande nação. Teria muito assunto para seguir falando, mas já é tarde, preciso dormir. Tive um dia agitado, que incluiu voltar ao hospital. Minha tosse voltou, estou com o peito congestionado. É o fantasma da pneumonia, de novo? O médico acha que não, que é um resquício, mas, por via das dúvidas, estou voltando aos antibióticos. 11 de Setembro! Agora, o outro, o que atingiu Allende. Não sou louco de não reconhecer o significado maior da data nos EUA, mas, na América Nuestra, o que houve no Chile foi muito mais que um golpe localizado. O governo da Unidade Popular representava um sonho, a via democrática para o socialismo. Chorei, pela destruição do Palácio de La Moneda, as lágrimas que permaneceram secas pelo World Trade Center. Quando chorei, foi nos filmes de Spielberg. E, agora, boa noite.