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Luiz Carlos Merten

02 Maio 2010 | 12h22

RECIFE – Confesso que torcia por outro curta na votação do prêmio da crítica e até me irritei com o grau de manipulação para inverter o resultado inicial, depois que ele venceu em primeiro escrutínio, mas tenho de concordar com Maria do Rosário Caetano. Minha cena inesquecívelo do 14º Cine PE pertence ao curta ‘Geral’, de Anna Azevedo, que documenta o público da parte do Maracanã cujo ingresso era mais barato. Rosário amou a mesma cena. Os chamados ‘geraldinos’ eram obrigados a ficar de pé, numa área em que a altura dos olhos devia corresponder ao joelho dos jogadores, no gramado. Essa parte foi fechada e a diretora filmou o público daquele ângulo, nos últimos cinco jogos em que a entrada lhes foi autorizada. Mas ela não fez um filme sobre a decisão administrativa. Fez sobre o público. Não sou boleiro, embora já tenha trabalhado no setor de esportes – em ‘Zero Hora’, em Porto Alegre. Fiz grandes amigos, pessoas que adoro e das quais tenho saudades até hoje. Onde andará o Boró, por exemplo? Adoro, quando estou no trânsito, com os motoristas do ‘Estado’, ouvir aqueles programas de esportes em que os caras não dizem coisa com coisa. Só abobrinhas. Não tenho paciência é com pessoas que ficam falando seriamente o tempo todo em futebol. Em festivais nacionais, tirando o momento do debate, fala-se mais em futebol do que em cinema, mas deixa pra lá. O público do filme da Anna não são nossos colegas ‘críticos’. É gente que tem uma relação apaixonada, visceral com o futebol – que o ‘vive’, não pensa, muito menos com pedantismo. Os torcedores filmados pela diretora são maravilhosos. Na grande cena, o torcedor, desesperado, rebela-se contra Deus. Já vi, naquele belo filme de Martin Ritt, ‘Pete ‘n’ Tillie’ – no Brasil, se chamou ‘Reencontro de Amor’, com Walter Matthau e Carol Burnett, a mãe erguer o dedo contra o céu, por causa do filho que está morrendo. Aqui, o torcedor radicaliza. Quando o jogador do seu time perde o gol, ele olha para cima, ergue o dedo e manda Deus tomar no c… É blasfêmia, mas é tão sincero, e feito com tanta paixão, que o próprio Senhor deve ter perdoado seu filho pródigo, à espera de que ele lhe venha pedir socorro novamente. ‘Geral’ é maravilhoso.