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Luiz Carlos Merten

29 Outubro 2011 | 09h13

Prometi outro dia que ia falar sobre lançamentos em DVD. ‘Mulheres Apaixonadas’, ‘O Mensageiro do Diabo’ e ‘Vícios Privados, Virtudes Públicas’. Descobri agora que a Lume, no mesmo pacote que inclui o cult de Miklos Janczó, lançou um Michel Deville de 1980, ‘Viagens’. Michel quem? Por volta de 1960, apenas dois diretores franceses da geração nouvelle vague ousaram se aventurar pela comédia – Philippe de Broca e Michel Deville. Eu amava as comédias de Philippe de  Broca com Jean-Pierre Cassel. ‘O Amante de Cinco Dias’, no meu imaginário, é muito melhor do que muita obra-prima da nouvelle vague. É o filme em que François Périer é interrogado pela filha, que lhe pergunta onde está a mãe. Jean Seberg está com o amante, mas o pai responde à garota que mamãe está demorando porque o salto alto a impede de vir correndo. Teria de deitar no divã do dr. Freud para tentar descobrir por que a frase é tão bela, e misteriosa, para mim, que  nunca a esqueci. Michel Deville, que havia sido assistente de numerosos diretores daquele cinema de qualidade que François Truffaut abominava, havia debutado com um policial. Mas logo vieram as comédias. “A Mentirosa’, ‘Por Causa de Uma Mulher’. Marina Vlady, Anna Karina… “La Menteuse’ me lembro que foi chamado de ‘L’ Emmerdeuse’. Deville parecia não ter muito futuro, mas até onde me lembro ‘A Mentirosa’ era muito bonitio. Marina Vlady rindo, chorando, tocando violão, sob a chuva. E então, em parceria com a mulher, a roteirista (e futura diretora) Nina Companeez, Deville fez ‘Benjamin – O Despertar de Um Jovem Inocente’, cuja elegância (e libertinagem) me seduziram. Depois, já separado de Nina, vieram ‘Raphael ou Le Débauche’, lançado como ‘O Libertino’, ‘Investigação do Cidadão 51’, ‘Perigo no Coração’ e ‘Uma Leitora Muito Particular’. Deville filma a perversão com o rigor de um Robert Bresson – bem, quase. ‘Viagens’ é sobre duas amigas que caem na estrada. Conversam e o que dizem revela um perfeito entendimento de suas personalidades e desejos, como informa o texto na capa do DVD. Conheço quase todo Deville lançado no Brasil e até algumas coisa que vi no exterior, mas ‘Viagens’ é ‘100% inédito para mim. Quem me falou do filme foi Isabelle Huppert, numa das vezes em que a entrtevistei. Ela divide a cena com Geraldine Chaplin. Isabelle foi, numa certa época, a atriz fetiche de Deville. Depois de ‘Viagens’, fizeram ‘Eaux Profondes/A Vítima por Testemunha’. Isabelle falava de Deville como um dos grandes com quem trabalhou. Fiquei com curiosidade de ver o lançamento da Lume.