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Luiz Carlos Merten

06 Novembro 2009 | 10h00

Jean-Michel Frodon já andou por aqui, participando de um evento na Reserva Cultural (ou será que me engano?). Não teve a menor repercussão. Ex (acho) ‘Cahiers du Cinéma’, ele deu entrevista na ‘Folha’ criando um daqueles debates arranjados que movimentam o jornalismo cultural. Frodon falou mal do cinema brasileiro, Cacá Diegues veio em socorro da cinematografia pátria. Não li nem um nem outro, o que não me permite participar da animada polêmica arranjada. Mas Frodon estava no júri que atribuiu, por unanimidade, o troféu Bandeira Paulista de melhor filme da 33ª Mostra a ‘Voluntária Sexual’. Deus nos ajude se é isso que Frodon está querendo defender para o cinema brasileiro. Ele que volte para Paris com seu conceito de cinema autoral, de resistência. ‘Voluntária Sexual’ poderia ser um filme de Sérgio Bianchi (e ele talvez o fizesse melhor do que o estreante Cho Kyong-duk). O filme investe contra uma nova forma de caridade, contando a história de uma mulher que aceita dormir com um deficiente físico para que ele possa conhecer o prazer sexual. Para contar sua ‘história’, o diretor recorre ao formato do filme dentro do filme. Logo no copmeço, a polícia invade o motel e prende o trio, um deficiente, um padre e a voluntária. A polícia busca uma camisinha com esperma, que seria a evidência de que foi cometido delito. Me lembro que, em Berlim, há dois ou três anos, houve polêmica por causa de ‘Samaritan Girl’, de Kim Ki-duk, que também trata de prostituição (e de menores). Na Coréia, há prostituição legal e ilegal, mas não é o tema de “Voluntária Sexual’. O tema é o humanitarismo radical. Recuso-me a especular sobre a sinceridade e a honestidade das intenções do diretor. Ele fez seu filme para escandalizar, para épater, ou por que o assunto é controverso e merece ser debatido? Temos aí um bom material para reflexão, mas o que emperra ‘Voluntária Sexual’ é sua estrutura narrativa. O filme dentro do filme é o ó da banalização da própria proposta e o tal Cho, se sabe iniciar seu filme, obviamente não sabe como terminá-lo. Que o júri – e um cara que veio cagar regras – tenha votado à l’unanimité é, para mim, motivo de espanto maior. Mas, claro, devo ser um humanista tradicional demais para essa gente tão avançada. Dos 12 pré-selecionados pelo público, teria votado em ‘A 40ª Porta’. ‘Voluntária Sexual’ tem sessão hoje à meia-noite no CineSesc. Se der, vou até rever e, se estiver enganado, prometo reconsiderar. Só para fechar – não é de hoje que os filmes coereanos abordam aspectos controversos da sexualidade. O próprio ‘Mother’, de Bong Joon-ho, é sobre sexo, como o próprio diretor disse em Cannes. ‘Mother’ dá de 100 em ‘Voluntária sexual’, mas, claro, o filme não é de estreante e, portanto, não poderia concorrer ao troféu Bandeira Paulista. Teria sido melhor do que ‘Gatos Persas’ para o prêmio da crítica…

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