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Luiz Carlos Merten

20 Fevereiro 2010 | 19h08

BERLIM – Vocês já devem saber, mas o filme turco ‘Bal’ (Honey, Mel), que encerra a trilogia de Semih Kapanoglu sobre Yusuf, acaba de receber o Urso de Ouro da 60ª Berlinale. Embora torcesse pelo romeno ‘If I Want to Whistle, I Whistle’, de Florin Serban, que ganhou dois prêmios importantes – o especial do júri e o Alfred Bauer, que leva o nome do fundador do Festival de Berlim (e contempla sempre um filme particularmente inovador) -, quero dizer que fiquei muito feliz com a vitória de Semih. O filme conta a história desse garoto e seu pai – o menino é gago e o pai tem uma ternura muito grande por ele; o pai, por sua vez, é epilético; numa cena tem um ataque e Yusuf, o pequeno protagonista, o apóia com a mesma dedicação que o pai tem por ele -, numa floresta de conotações míticas. Vou relatar agora o que não havia falado antes, não sei se por pudor. Quando entrevistei Semih, ele falou da floresta e da relação que o oriental tem com ela, uma coisa mais profunda e mística do que observa no Ocidente. Semih acrescentou agora, no palco do palast, que a floresta do filme está ameaçada pela construção de uma represa e ele espera que o Urso de Ouro ajude a preservá-la. Até aí tudo bem. Na entrevista, lhe disse como havia sentido o filme. No começo, o garoto vai relatar um sonho e o pai lhe diz que os sonhos não devem ser contados em voz alta. Ele pede ao filho que sussurre no seu ouvido, o que o garoto faz. No final, ocorre uma coisa que não vou contar, mas o garoto dorme na floresta e eu disse ao diretor que, para mim, é como se o filme fosse essa coisa sonhada. Não apenas ‘Bal’, mas toda a trilogia de Yusuf, que tem a particularidade de ser contada pelo inverso, acompanhando o personagem aos 18, aos 14 e aos 8 (ou 10) anos. Juro – quando lhe disse isso, Semih me abraçou e disse que havia feito o filme com essa intenção, mas eu era o primeiro jornalista que havia captado seu desejo, ou pelo menos o primeiro a manifestá-lo. Confesso que fiquei todo prosa, mas o filme é muito bonito e Leon Cakoff faria muito bem se levasse não apenas ‘Bal’, mas a trilogia de Yusuf – e o próprio Semih Papanoglu – para a próxima Mostra. Gostei do prêmio de melhor atriz para a japonesa Sinobu terajima, de ‘Caterpillar’, e só achei excessiva a dupla premiação para o russo ‘How I Ended This Summer’. Tudo bem para o prêmio de contribuição artística – a fotografia é excepcional e usa as amplas paisagens geladas do Ártico para criar isolamento e claustrofobia, o que não é fácil -, mas não engoli o prêmio para os dois atores, talvez porque não goste da relação entre os personagens. Deixo para o final o prêmio de direção. Foi atribuído a Roman Polanski, por ‘The Ghost Writer’ e, por mais respeito que tenha por ele, fico em dúvida se o júri realmente está premiando a direção ou fazendo um desagravo ao cineasta preso na Suíça. O prêmio, de qualquer maneira, foi muito aplaudido, o que significa que a plateia – a comunidade cinematográfica mundial – está apoiando o diretor.