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Luiz Carlos Merten

21 Setembro 2007 | 17h37

RIO – Não gosto de A Arca Russa pelos motivos que acho que já esclareci para vocês, mas isso não significa que não tenha respeito (nem admiração) pelo cinema de Alexander Sokúrov. Não curto o plano-seqüência da Arca – por mais brilhante que seja, do ponto de vista da estétrica -, porque acho que é uma reação de Sokúrov ao Eisenstein. Sokúrov, na Arca, principalmente, é saudosista da Rússia eterna, aquela que acabou com a Revolução de 1917. Eisenstein fez da tomada do poder pela classe trabalhora o tema dominante de seu cinema (em Greve, O Encouraçado Potemkin e Outubro). Ele erigiu toda uma teoria da montagem convencido de que cabe ao cinema, por meio dela, ordenar as imagens no inconsciente do espectador, despertando sua conscientização para o engajamento no processo revolucionário. É curioso que tudo isso – revolução, consciência – pareça hoje antediluviano, mas nada nem ninguém (só eu) se arrisca a dizer que a cena da escadaria de Odessa pode não ser a seqüência mais influente da história do cinema. Sokúrov, querendo buscar a alma russa no Museu Hermitage, fez o quê? seguiu o caminho inverso de Eisenstein. Se o outro pensa e usa a montagem, ele a nega por meio do seu plano único. É interessante, reconheço, mas não me tenta. O Sol é outra coisa. O filme sobre a derrocada do Japão, no fim da 2ª Guerra Mundial – e a humanização do Imperador, que era considerado uma figura divina -, é maravilhoso e melhor ainda é Alexanbdra, que passou em Cannes neste ano, não está no Festival do Rio, mas espero que a Mostra de São Paulo esteja trazendo. Irina Palm é da Imovision, o que significa que estará na Mostra e, logo em seguida, deverá estar entrando nas salas da Reserva Cultural, de Jean Thomas Tomasini. Irina Palm é, acima de tudo, um grande papel de Marianne Faithfull, que faz esta velha que vira masturbadora profissional – exatamente, você leu certo – para levantar rapidamente dinheiro para pagar a operação do neto. Por mais insólito que seja o ponto de partida, o filme é sobre afeto, relações humanas, família. Às 21h30, na inauguração da Première Brasil de 2007, categoria ficção, quero ver Nome Próprio, de Murillo Salles, que passa fora de competição. Além de grande fotógrafo (Árido Movie, para não falar nos títulos mais antigos), Murilo é autor de Nunca Fomos tão Felizes, um dos grandes filmes brasileiros dos anos 80, e Assim Nascem os Anjos, que se antecipou a O Invasor, de Beto Brant, ao mostrar o centro do poder acuado pela periferia neste Brasil de tantas desigualdades sociais. Não gostei muito do filme anterior de Murilo, aquele com Rocco Pitanga (e não por causa do ator). Espero ser surpreendido, agradavelmente, por Nome Próprio. Aliás, nem seria surpresa. Murilo estaria retomando seu melhor nível, apenas isso.

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