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Luiz Carlos Merten

10 Junho 2007 | 12h43

Existem episódios emblemáticos da história do Oeste. O massacre de Little Big Horn, o tiroteio do OK Corral. Ambos foram integrados à saga heróica da conquista do Oeste. Wyatt Earp sobreviveu para servir como consultor de westerns em Hollywood, nos primórdios do cinema mudo. John Ford afirmava havê-lo conhecido, tendo feito Paixão dos Fortes com base nas informações que ouviu do próprio xerife. Paixão dos Fortes, My Darling Clementine, é um grande western de Ford, de 1946. Henry Fonda interpreta Wyatt Earp e Victor Mature é seu amigo Doc Holliday. Juntos, enfrentam a quadrilha dos Clantons, apresentados como baderneiros, no célebre tiroteio. Ford usa a história para outra coisa. Não é o tiroteio, em si, que lhe interessa. O que ele quer descrever é o processo civilizatório do Velho Oeste. O tiroteio é o clímax, mas antes disso tivemos as cenas do teatro e o baile, porque o importante é recriar a vida em Tombstone. Não é um filme sobre indivíduos, sobre heróis solitários, mas sobre os laços que formam uma comunidade. Quando Ford fez seu filme, e quando John Sturges fez o dele, em 1957 – Sem Lei, sem Alma -, aquela era a história oficial. Em 1960, uma reportagem na revista Life fez a revisão do OK Corral e destruiu a lenda do xerife imaculado. Wyatt Earp matou porque o celerado era ele, que queria, com o irmão, se apossar das terras dos Clantons. O próprio Sturges voltou ao OK Corral para propor, em A Hora da Pistola, 10 anos depois, a versão desmistificadora, mas ninguém foi mais radical do que Frank Perry, quando fez Doc, no começo dos anos 70, colocando a ênfase no pistoleiro bêbado que foi parceiro de Wyatt Earp. Doc chamou-se, no Brasil, Massacre de Pistoleiros e foi o que o episódio deve ter sido, na realidade. A história De Little Big Horn não foi menos controvertida, mas de novo o post ficou extenso e eu falo no próximo, para chegar a Sangue de Herói.