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Luiz Carlos Merten

04 Setembro 2009 | 11h21

Nunca tive muita paciência com os musicais da dupla Botelho e Mueller, mas agora chegamos ao fundo do poço com ‘Avenida Q’. É horrível. Não deu nem para segurar – saí no meio, aliás, antes do meio, o que acho que nunca tinha feito antes no teatro. Em geral, seja teatro ou cinema, fico até o fim, por honra da firma, mas ontem não deu. Havia enfrentando chuva, trânsito. Logo na entrada, um pôster adverte que se trata de espetáculo com bonecos para adultos. Com o risco de desagradar – agredir? – o público que parecia estar se divertindo, acho que não é infantil nem para adultos, mas para débeis mentais. Será que estou ficando superado? Pode ser, não descarto a hipótese, mas a submissão de Botelho e Mueller ao modelo ‘Broadway’ me causa enfado, mais do que irritação. Essa gente não cria, copia. E daí que os atores cantam bem? Dois ou três deles me pareceram insuportáveis, mas talvez não seja o problema dos moços, mas do ‘modelo’. O primeiro número é uma cantoria em que, um a um, os personagens vão dizendo que estão na m… Legal! Três ou quatro números depois, veio o must – o elenco canta que somos todos um pouco racistas e as piadas são pesadas. ‘Negro quando não c… na entrada c… na saída e, na verdade, c… o tempo todo.’ A plateia morre de rir, porque entre os que cantam há um ator negro e, afinal, qual é o problema? Todos somos um pouco racistas, negro caga mesmo, é isso? Não estou cobrando correção política, mas me pergunto qual é o sentido dessa liberação geral. Pois minha impressão é de que não se trata de incorreção, mas de legitimação, o que é diferente. Mas o que me irrita é a cópia, a submissão, como se fosse uma grande coisa termos a Broadway aqui, imitando direitinho os gringos. É um retrocesso. Há 50 anos, na Atlântida, Carlos Manga e outros diretores instituíram uma estética da paródia para fazer humor de resistência. Hollywood fazia ‘Sansão e Dalila’, ‘Matar ou Morrer’? A Atlântida retrucava com ‘Nem Sansão nem Dalila’, ‘Matar ou Correr’. Em ‘O Homem do Sputnik’, o artefato espacial soviético caía no galinheiro de Oscarito e as superpotências enviavam seus espiões para se apossar da engenhoca. Norma Bengell tinha uma participação antológica, fazendo beicinho e dizendo ‘Chérrrri”, numa imitação de Brigitte Bardot. Meio século depois, acho que as pessoas teriam – têm? – vergonha da paródia e querem ser ‘iguais’, mesmo que isso signifique clonar, copiar. Um dos rapazes em cena parecia a reencarnação de Danny Kaye. Mas o cara já era sem graça em ‘O Bobo da Corte’, de Norman Panama, em 1956, formando dupla com Glynis Johns e Angela Lansbury! Enfim, uma coisa é Brasil. Desde garoto – e na semana que vem completo 64 anos –, ouço que chegamos ao fundo do poço, só que o poço sempre pode ser escavado mais um pouco. Aquela diva da Marília Pêra, também no Teatro Procópio Ferreira, já era o fundo do poço. O buraco agora é mais embaixo. Mas não se iniba. Vá e ria. Quem sabe estou ficando um velho rabugento como o Carl de ‘Up – Altas Aventuras’, a animação de Pete Docter, da Pixar, que estreia hoje? Por sinal, boa animação, a décima da Pixar, mas nada que se compare a ‘Procurando Nemo’ e ‘Ratatouille’, minha favorita, cujos temas – proustianos – do tempo perdido e reencontrado, aqui o tempo da aventura, Docter retoma.