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Luiz Carlos Merten

16 Fevereiro 2007 | 21h16

BERLIM – Resisti o quanto pude, mas agora vou ter de encarar. Assisti ontem aa exibicao oficial de Deserto Feliz, de Paulo Caldas, no Panorama. Se resisti, foi porque, sinceramente, nao sabia o que dizer. Eh verdade que eu havia saido de uma experiencia que me deixou em estado de graca – a apresentacao de Ne Touche Pas la Hache, seguida da coletiva de Jacques Rivette. Jah escrevi que a modernidade de Rivette estah em ter feito seu filme, um verdadeiro teatro das convencoes sociais, sem medo de parecer academico, com comeco, meio e fim, mas subvertendo, internamente, essas convencoes gracas a uma sublime direcao de atores. Essa eh uma das rarissimas coisas que achei irretocaveis em Deserto Feliz. Todo o elenco estah muito bem dirigido, especialmente as mulheres, que fazem as prostitutas. Mas eu confesso que ando meio cansado desse cinema brasileiro de autor que estah virando o reverso exato do nosso cinema industrial (em geral, de recorte televisivo). Temos um Bressane, que eh sempre intrigante, mas Concepcao, Deserto Feliz… Me deixam a desejar, para dizer o minimo. Os diretores nao querem ser lineares, querem inovar. Eh um direito deles. Mas entao que inovem! Hah mais inovacao em Rivette, que nao descontroi Balzac e, pelo contrario, segue fielmente o romance, sem deixar de ser fiel a si mesmo. Ne Touche Pas eh um exemplo de adaptacao. Basta comparar com a digna, mas algo tediosa, Madame Bovary, de Chabrol, que, no limite, nao honra o cineasta nem o escritor (e olhem que amo Chabrol). Deserto conta, de maneira nao linear, a historia dessa garota do sertao, que vira p… na cidade grande e arranja um gringo que a traz para a Europa, mais exatamente, para Berlim. Historia eh modo de dizer. Paulo Caldas justapoe diversas cenas que vao revelando os personagens e, pelo acumulo de informacoes, terminam fazendo evoluir, nao propriamente o relato, mas uma situacao dramatica em tres tempos (sertao, cidade, Europa). Mesmo aos trancos e barrancos, a gente sabe aonde ele estah querendo chegar. A menina vive cantando uma musica brega, que fala de amor perdido, de andar aa deriva na vida, de ir segundo as ondas. Eh o tema do filme. A menina vai assim, levada (nao da breca, mas digamos, pelo destino). Digamos que o filme eh interessante, mas eu confesso que estou mentindo, porque achei aquela gente tao desinteressante que a hora e meia de Deserto Feliz se multiplicou por dez.