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Luiz Carlos Merten

02 Janeiro 2008 | 10h50

Saí ontem do jornal disposto a ver ‘O Livro das Revelações’ – que tal, vocês já viram? -, mas desisti no meio do caminho e terminei vendo, em DVD, ‘Desencanto’, de David Lean. Que filme bonito. Noel Coward, que além de autor do roteiro, é produtor, baseou-se na sua peça em um ato, cujo título original, ‘Still Life’, é o mesmo do filme de Jia Zhang-ke que no Brasil se chamou ‘Em Busca da Vida’ (e foi um dos melhores do ano passado). Fazia tempo que não via ‘Desencanto’ e me impressionou como o filme é bonito, como é rigoroso – e como Davcid Lean usa bem a música, o segundo concerto para piano de Rachmaninoff. Triste como é o filme – a história de um casal que vive um breve romance, que nunca é consumado, a partir de seus encontros numa estação de trens -, achei aquele final glorioso. A fala do marido de alguma forma me remeteu a ‘Pickpocket’, de Robert Bresson, só que lá o cara precisa ir preso para descobrir a liberdade e aqui é o oposto – a mulher, na verdade, está abrindo mão da liberdade e se acomodando na prisão do casamento, que a impediu de ser feliz com aquele homem (também casado). Como Trevor Howard era bom ator! Insisto nele porque não tenho nenhuma outra lembrança de Celia Johnson, mas Trevor Howard foram tantos filmes – ‘O Terceiro Homem’, ‘Filhos e Amantes’, ‘O Grande Motim’ (a versão com Marlon Brando), ‘A Carga da Brigada Ligeira’ (a versão de Tony Richardson) e ‘A Filha de Ryan’ (de David Lean, de novo). Trevor Howard foi o Wagner de Visconti em ‘Ludwig, a Paixão de Um Rei’, seu último grande papel de que me lembro. Fiquei chapado e confesso que não parei de pensar em ‘Desencanto’, que foi refeito com Sophia Loren e Richard Burton e, disfarçado, pode ser visto também como ‘as Pontes de Madison’ (ou vocês acham que não?). Mas a verdade é que o que me perturbou foi a recusa de relações íntimas por parte do casal. Houve um tempo, há 20 e tantos anos atrás, no auge do surgimento da aids, quando surgiram alguns filmes sobre romances platônicos e os críticos caíram matando. Parecia um neoconservadorismo ditado pelo medo da síndrome de imuno-deficiência adquirida. Ocorre é que existe um certo número de narrativas clássicas – e trágicas – baseadas nessa renúncia. Estou pensando agora em ‘Ne Touchez pas la Hache’, de Jacques Rivette, baseado na Duquesa de Langeais, de Balzac, que eu amo (o filme como o romance). A duqueza foge ao amante e quando ele a encontra, no convento, ela morre antes de poder ser resgatada. Se fizessem sexo, se ele a resgatasse seria tão mais banal. A tragédia vem da impossibilidade. Que filme mais lindo, e intimista, ‘Desencanto’! Não admira que David Lean, mesmo nos seus maiores filmes, tenha se sentido sempre atraído pelo que parece um paradoxo. São filmes épicos e intimistas, uma contradição em termos que o grande Lean sabia, como ninguém, resolver.