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Luiz Carlos Merten

25 Março 2007 | 14h15

Quero ver hoje Santiago, do João Moreira Salles, à noite, no CineSesc, mas já estou prevendo que será jogo duro. O próprio João estará aqui para apresentar o filme e debater com o público no final, nesta nova modalidade de participação que o Festival Internacional de Documentários absorveu das mostras paralelas de Berlim, Cannes e Veneza. Imagino que muita gente também esteja querendo ver Santiago, que abriu o É Tudo Verdade na sexta, no Rio. Vou chegar cedinho para garantir meu lugar. Antes quero dizer que vi ontem Descaminhos, mas não gostei do novo documentário daquela turma de Minas que fez Aboio, que venceu o É Tudo Verdade (quando foi? Há dois anos?). Há uma vertente, não sei se escola, mineira de documentário. Trafega no limite da videoarte de Éder Santos. São documentários poéticos, nos quais, muitas vezes, a preocupação plástica prevalece sobre os chamados conteúdos. Descaminhos trata de trens. olha o mundo à margem das raras ferrovias que ainda operam no País. Aliás, é curioso que o filme comece no lugar no trem, avançando para um túnel. A tela fica toda escura, como no início de Construção. Este É Tudo verdade está sendo muito atraído pelo buraco negro (do cinema?). Pode-se ver uma metáfora – o trem avança para o escuro, com tudo o que ele representa. No restante do filme, o espaço filmado, pelo menos o do trem, é sempre atrás e as pessoas todas falam com tristeza e saudade do tempo em que as ferrovias funcionavam e havia muito mais vida à margem delas. Me lembrou José Lins do Rêgo – acho inesquecível a cena de Joanna Francesa, de Cacá Diegues, em que o coronel olha aqueles canaviais e diz para Aureliano que o fim dos engenhos produziu um fogo morto. Tive essa essa sensação. Um fogo morto em Descaminhos. Só ruínas. Gente velha, no fim da vida, falando de um tempo morto. Alguns acusam os políticos pelo descaso em relação às ferrovias, no País. Não consegui embarcar na viagem e até achei meio demagógica a preopcupação ‘social’. Entendo que é procedente, mas não apenas a preocupação, na maior parte do tempo, é estética, como acho que um documentátrio social sobre as ferrovias teria de ser muito diferente. Não conheço especificamente a situação das ferrovias mineiras, mas em todo o Brasil, no Sul – processo documentado por Sylvio Back num longa de ficção, A Guerra dos Pelados, e na Amazônia, a Madeira/Mamoré –, a ferrovia foi obra de estrangeiros (ingleses, quase sempre), que desmataram, dizimaram populações inteiras e ganharam direitos de exploração de vastas áreas brasileiras. Achei Descaminhos meio mistificador e, pior, não consegui me envolver nem com o filme nem com os personagens. Pena, porque eu próprio, que ainda não havia assistido ao filme, escolhi a foto que demos na capa do Caderno 2, na quinta, na abertura do festival. Achei muito bonito aquele detalhe de um vestido vermelho, com a estação ao fundo. Esse tipo de angulação, e rebuscamento plástico, dá o tom de Descaminhos, que, naquele momento, eu terminei supervalorizando. Quem gostou, sinta-se à vontade para defender.

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