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Luiz Carlos Merten

03 Agosto 2010 | 14h22

Já contei para vocês como amo a sonoridade do idioma espanhol e cada vez que penso nisso me vem uma frase de Ricardo Guiraldes, justamente o fecho, a frase final, de seu romance clássico, ‘Don Segundo Sombra’. Vocês teriam de ler o livro – e alguns, quem sabe, já o terão lido – para entender o significado daquele ‘Me fui como quién se desangra’. Fui embora como quem verte sangue, de tanta dor.  Me veio a frase, agora, de novo. Cheguei da sessão de ‘Os Mercenários’, levantei-me da minha mesa e vi, na de meu colega Bira, Ubiratan Brasil – que já foi para Paraty, na Flipe -, o volume ‘Durante Aquele Estranho Chá’, memória e ficção de Lygia Fagundes Telles, que tira seu título do encontro que ela, estudante universitária, teve com Mário de Andrade numa confeitaria paulistana. Na contracapa a súmula do livro – Lygia relata a convivência com Paulo Emilio Salles Gomes e as conversas com personagens marcantes, Simone de Beavoir, Clarice Lispector, Jorge Amado, Hilda Hilst. Confesso que me interessou particularmente seu encontro com Jorge Luis Borges, que fui procurar (e achei). O texto chama-se ‘A Rosa Profunda’ e é de uma beleza borgeana. Recria até um labirinto de memória, Lygia tentando lembrar um nome  citado pelo autor de ‘Ficções’ e a forma como ele terminou vindo, por meio do auxílio (in)consciente do também escritor Sérgio Faraco, tradutor de “Uma Estação de Amor’, com os contos do uruguaio Horácio Quiroga. O que Lygia fala de Borges poderia ser uma banalidade, mas a forma como ela relata atribui à reflexão sobre o sonho o significado que ela tem. O sonho me ligou a ‘A Origem’, de Christopher Nolan, mas, no filme, os labirintos são de Escher, não de Borges (e m,esmo qwue esse último possa ser invocado). Amo Borges, o personagem como o escritor genial. Não consigo pensar nele, na sua erudição, na sua solidão, sem me ‘desangrar’. o conciso e elegante texto de Lygia me tocou. O livro, ‘Durante Aquele Estranho Chá’, é da Companhia Das Letras’.

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