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Luiz Carlos Merten

19 Dezembro 2006 | 17h00

Cá estou eu de volta a Scorsese. Outro dia, nos comentários, acho que foi o Sandoval que tirou sarro de mim, dizendo que eu era o cara que tinha gostado de um dos filmes menos lembrados do Scorsese, o Depois de Horas. Pouco lembrado por quem, cara-pálida? Scorsese ganhou o prêmio de direção no Festival de Cannes e muita gente, inclusive eu, considera aquele o seu filme mais bem realizado e complexo. A história daquele sujeito que cai na noite em busca de prazer talvez seja o maior pesadelo sexual da história do cinema. Griffin Dunne, naquele banheiro, olha o grafite que representa o medo masculino da vagina dentada e o filme, a partir daí, vira uma viagem louca sobre o pânico da castração. Mais do que o Kubrick de De Olhos bem Fechados, Scorsese fez de Depois de Horas o seu coito interrompido, que também pode ser visto como metáfora da masturbação. Mesmo me arriscando a parecer tarado, acho isso bem mais interessante, principalmente vindo de um cara como Scorsese, que teve uma (má, com certeza) formação no seminário e que, antes de sonhar com o cinema, queria ser padre. No caso de Os Infiltrados, quando digo que não tenho mais paciência para aquilo é pelo seguinte – acho que o mundo e o cinema já andam uma m… muito grande para eu ficar avalizando um filme que, em vez de olhar o mundo, encara seu reflexo mediatizado pelo cinema. Tenho lido os comentários sobre Os Infiltrados no blog e eles são numerosos, mas nunca encontrei este enfoque por parte de nenhum fã do filme. Talvez o objetivo do Scorsese fosse criticar essa banalização da violência, esse mundo sem ética a que o cinema de ação nos acostumou. Não só o cinema, é verdade. Talvez seja (ou fosse) essa a intenção – mas eu não consigo mais viajar nesse tipo de coisa. Cansei, não tenho paciência, sinto muito. Mas, por favor, ao defender o filme do Scorsese, sugiro que os fãs de Os Infiltrados o façam por este ângulo. Porque filmar o mundo já midiatizado pelo cinema, em vez de tentar entender o mundo sem midiatização? Acho que a crítica que o Scorsese quer fazer – ao mundo, ao cinema – passa por aí. Afinal, ele é cinéfilo, ama o neo-realismo e na sua viagem pelo cinema italiano manifesta um gosto humanista muito forte. Infelizmente, não vejo isso refletido nos Infiltrados, como não tinha visto em O Aviador, que me parece uma mistificação muito grosseira da vida do Howard Hughes.

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