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Luiz Carlos Merten

02 Novembro 2006 | 21h21

Estou no aeroporto, embarcando para Nova York, onde assisto amanhã a Cassino Royale, para entrevistar, no sábado, o novo 007, Daniel Craig, e também Eva Green e o diretor Martin Campbell. Liberado pelo horário, aproveito para postar algum comentário sobre a premiação da crítica na 30ª Mostra. Houve uma votação, de críticos chamados independentes – tão independentes que não fizeram uma chamada geral da categoria – e esta outra, da qual participei e que presumo que seja a dos dependentes, feita dentro da Mostra. Pois bem, votamos em dois filmes. Melhor brasileiro e melhor estrangeiro. O melhor brasileiro foi O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia, que também já havia recebido o prêmio da crítica internacional (Fipresci), no Festival do Rio. Heitor, baseado no livro do Lourenço Mutareli, fez um filme do qual gosto muito e ao qual se ajusta, como poucos, a definição de transgressor. O melhor estrangeiro foi Hamaca Paraguaia, da Paz Encina, pelo qual, desde Cannes, quando integrei o júri da Caméra D’Or, sou apaixonado. Meus colegas jurados, que incluíam os irmãos Dardenne, não se impresionaram tanto com Hamaca – pior para eles! -, mas a conseqüência foi que o filme não ganhou nada, para meu desgosto. Primeiro filme concluído no Paraguai desde Cerro Cora, de 1978, que Leon Cakoff exibiu na quinta ou sexta Mostra (seria preciso pesquisar, porque nem ele se lembrava do ano), Hamaca me fascina pela ousadia estética, pela extrema economia de meios e pela profunda humanidade que, para mim, emerge da situação, nem digo da história, daqueles dois velhos que a gente vê ali, a distância, e que discutem a situação do filho que partiu para a guerra. Hamaca me caiu como um raio, desde que o vi pela primeira vez, porque é a prova (mais uma!) de que o cinema pode nos abrir janelas para o entendimento (do mundo, da arte, de nós mesmos) e tudo isso com rigor, sem efeito nenhum a não ser a voz humana. Salve Heitor, salve Paz Encina! Salve meus colegas votantes, que tiveram sensibilidade e inteligência para escolher dois filmes tão novos.